terça-feira, 26 de novembro de 2019

e essa taça vamos conquistar

     vamos flamengo não há palavras com que eu possa definir não há palavras com que eu possa exprimir o que é ser flamengo é uma glória no cenário mundial eu sempre te amarei onde estiver estarei ó meu mengo e domingo eu vou ao maracanã flamengo joga amanhã eu vou pra lá o maraca é nosso vai começar a festa sai do chão sai do chão a torcida do mengão a bola rola e essa galera vai vibrar diz o gramado sai da frente é o mengão sempre amado o mais cotado seja na terra seja no mar quando o flamengo joga é casa cheia o maraca é nosso somos uma nação é lindo ver o mengão contagiando essa torcida essa cidade são dez estrelas a brilhar no céu do meu mengão o céu na noite que reluzia não vai ser de brincadeira ele vai ser campeão encantou o estácio ó paixão que arde sem parar cobra coral papagaio vintém vestir rubro-negro não tem pra ninguém acima de tudo rubro-negro teu manto é minha pele no meu peito teu escudo campeão o teu destino é ganhar em terra e mar ele vibra ele é fibra é time de tradição raça amor e paixão ó meu mengo estou sempre contigo somos uma nação os meus olhos estão brilhando meu coração palpitando de tanta felicidade fecho os olhos e lembro em dezembro de 81 botou os ingleses na roda e quem enfrenta reconhece o maior da história é mengo tengo no meu quengo é só flamengo tens na torcida uma força sem igual flamengo da dona de casa do povo sofrido do trabalhador meu glorioso flamengo cada jogo uma vitória cada vitória um carnaval flamengo do sul e do norte de todos os cantos de toda nação ó meu mengão eu gosto de você no asfalto e no morro é o bonde do mengão sem freio três a zero no liverpool ficou marcado na história vamos flamengo vamos ser campeão vamos flamengo time consagrado pelo povo preto encarnado idolatrado sua história sua glória seu nome é tradição é samba amor e paixão a minha maior alegria é ver o mengo campeão vamos fazer desse samba oração e do clamor dessa massa procissão cem anos de uma história quanta tradição vai flamengo balança a rede do adversário quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro lembrar você sou campeão mundial vamos buscar no sonho na filosofia na ciência e na magia explicação pra essa religião que a gente só pode sentir com o manto sagrado e a bandeira na mão é o ai jesus que torcida é essa por isso que digo uma vez flamengo sempre flamengo e agora o seu povo pede o mundo de novo zum zum zum zum zum zum a torcida quer mais um e o nome dele são vocês que vão dizer dale dale dale ô dale dale dale ô flamengo maravilhoso cheio de encantos mil mengão do meu coração flamengo maravilhoso campeão do meu brasil eu sempre hei de ser não importa onde esteja sempre estarei contigo que o seu futuro ainda será mais lindo que o seu presente que tão lindo é

ítalo puccini

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

hoje eu quero estar só

     parafraseando o lenine. o que não significa querer estar sozinho. e sobre solidão e multidão eu me recordo de uma temática bastante recorrente na literatura, talvez clichê justamente devido à recorrência: a dualidade aparência versus essência, muito presente por exemplo em machado de assis, que a abordou em variados romances e contos. a citar estes, creio que valem “o enfermeiro” e “um homem célebre”, além do romance introdutor do realismo no brasil “memórias póstumas de brás cubas”, afinal, nessas três histórias os personagens – principais e secundários – preocupam-se com o que aparentam aos outros, movendo-se, nessa obsessão, por vezes em caminhos contrários à essência que os constituía e por fim se sentindo sós de uma maneira bastante sofredora. o oposto de mim.
     em “o enfermeiro”, por exemplo, o personagem principal, narrador, após a morte do homem rude de quem cuidava, felisberto, sofre um drama de consciência, intensificado pela herança do enfermo, e a culpa o atormenta, num primeiro instante, ao questionar a possibilidade de ficar ou não com tal dinheiro, uma vez que fora ele quem matara o velho, após uma briga corporal – porém, as pessoas, não sabendo da causa mortis, elogiavam-no, por suportar durante tanto tempo cuidar de alguém tão rabugento. já o personagem de “um homem célebre”, pestana, vive e morre frustrado, em função de que, sendo um compositor de polcas, nunca assim se satisfez; queria mais, desejava criar obras clássicas. o destino lhe mostra que nascera para aquilo de que não gostava e assim morre bem com os homens e mal consigo mesmo.
     ainda, essa dualidade entre aparência e essência consta na poesia, encontrada nestes dois poemas: “mal secreto”, de raimundo correia, e “ante um cadáver”, de murilo mendes, sendo que o primeiro, poeta parnasiano, preocupado com o rigor formal do texto, escreve sobre o quanto a necessidade de ser socialmente aceito induz o indivíduo a agir de forma dissimulada:

“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

     enquanto o segundo, poeta modernista, mais afeito à liberdade formal, apresenta um olhar relacionando a aparência ao que há de inútil em nós, e a essência à solidão, afinal, é quando estamos sós que temos a oportunidade de sermos quem de fato somos:

“Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?

Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.”

     e é nesse viés em que me encontro e com o qual me identifico: de mais solidão e menos companhias, desde a infância enveredando por essa escolha, constatação que algumas sessões de análise terapêutica me ajudaram a assimilar e a entender enquanto comportamento essencial em mim, logo, distante de um sofrimento comumente associado à solidão, presente, a exemplo, nas ficções citadas. desse modo, uma vez isolado, sou “um homem mais sincero e mais justo comigo”, conforme canta o falcão, d’o rappa, e se atenua em mim uma suposta falta do outro, pois minha essência advém justamente da introspecção, do recolhimento e da energia poupada ao evitar interação desnecessária porque desinteressante. 
     daquilo que não me acrescenta eu me afasto, em terapia também compreendi. apego-me, pois, à literatura – à identificação com alguns escritos e à tentativa de escrever – da mesma forma que eu poderia abraçar-me à bebida ou aos encontros sociais. todas escolhas, sempre atreladas a renúncias. e como é bom saber se desprender daquilo com o qual não há identificação, sem necessidade de recorrer à extenuante aparência.

ítalo puccini

terça-feira, 12 de novembro de 2019

fazer poema lá na vila é um brinquedo

     e ouvir tuas composições, noel, é conhecer um cotidiano rio de janeiro de outrora – cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade mulher – ou, mais precisamente, a vila isabel, tão bem retratada por ti: “são paulo dá café / minas dá leite / e a vila isabel dá samba”. é o viés que pega o ouvinte e o leitor no contrapé, que faz dançar os galhos do arvoredo, que faz a lua nascer mais cedo. são teus versos os que fazem isso ao cronicar assim em forma de samba, noel. 
     samba este que não se aprende no colégio, sabemos, cujas rimas não são ai love you. nem no teu tempo, nem no meu. e por isso mesmo que vezemquando apresento a estudantes algumas amostras musicais desse gênero tão brasileiro, pensando que talvez se identifiquem com o ritmo ou com os escritos. se não pela possibilidade de se sentirem tocar pelos versos, ao menos apresento uma composição assim rica: “o sol da vila é triste / samba não assiste / porque a gente implora / sol, pela mor de deus / não vem agora / que as morenas / vão logo embora”. 
     e ouvindo-te eu aprendi que a vila não quer abafar ninguém, e sim apenas mostrar que faz samba também e que é uma cidade independente, não disposta a tirar patente. é o tal feitiço que há na vila, lugar onde o que não faltava era conversa de botequim e exigência de um bom atendimento do garçom. aliás, qual foi o resultado do futebol por aí? aqui só dá flamengo. também não sei vestir casaca, não sou um tipo zero do tipo que não tem tipo que com todo tipo se parece. 
     e, tendo ou não cem mil réis, não há quem não cantarole o refrão de “com que roupa?” nos momentos, bastante frequentes, em que ficamos a matutar o que vestir. ah, tu sabias o que dizias. ô, se sabias: “quanto a você da aristocracia / que tem dinheiro mas não compra alegria / há de viver eternamente sendo escrava dessa gente / que cultiva a hipocrisia”. machado de assis te aplaudiria, tenho certeza. inclusive, um dia eu gostei de uma vida boêmia. hoje, eu prefiro os amigos. afinal, onde está a honestidade? eis o xis do problema, tal qual estava lá naquela carta que tu recebestes: “quem é da boemia / usa e abusa da diplomacia / mas não gosta de ninguém”. 
     permita-me, noel, para finalizar esta breve conversa, uma pergunta-cretina: paixão não te aniquila? olha que te vejo muito naquele gago apaixonado, hein? mas não vou insistir nessa vereda, não. com paixão não se brinca. é preciso um bocado de respeito pelo sentimento do outro, afinal, “um grande amor tem sempre um triste fim” e “quem suportar uma paixão / sentirá que o samba então / nasce do coração”. como um último desejo. 

ítalo puccini

terça-feira, 5 de novembro de 2019

a escrita enquanto reparação




     até que ponto a escrita é capaz de reparar algo? é o que tenho me perguntado desde que assisti novamente ao filme “desejo e reparação”, dirigido por joe wright, baseado no livro “reparação”, do ian mcewan. e essa indagação se origina no que nos apresenta a narrativa: a escrita de uma história, por uma das personagens, como forma de reparar um erro cometido por ela há muitos anos. então que eu refaço a pergunta: até que ponto a escrita é capaz de reparar, ou seja, consertar um erro? repara a ação já cometida? ou se transforma em uma obsessão? em portugal, por exemplo, o romance saiu intitulado “expiação”, que, de acordo com o dicionário, significa “ato ou efeito de expiar; reparação ou sofrimento pelo qual se expia uma culpa; castigo”. escrever expia o sentimento de culpa? para responder a isso, acredito que seja bom direcionar a questão, especificar este ato de reparar: a quem ele faz referência?

reparação
briony tallis, com 13 anos e uma mente muito criativa e imaginativa, acusa robbie, o filho de uma das empregadas que trabalhavam para a família tallis, de tentar violentar sexualmente lola, 15, prima de briony, em uma noite – esta que era muito especial, devido à visita do irmão das meninas, leon. tal acusação ocorre quando os primos gêmeos desaparecem durante o jantar, e todos se dispersam para procurá-los, pela grande propriedade onde reside a família. de fato lola estava sendo violentada, mas não por robbie. porém, briony resolve dizer a todos que tinha visto com seus próprios olhos que havia sido ele. 
por que culpá-lo? ciúmes, talvez. egoísmo, como uma tentativa de tornar o dia de alguém tão insuportável quanto fora o seu, repleto de frustrações: uma peça teatral, escrita por ela – para recepcionar o irmão – que não pode ser encenada, por má vontade dos envolvidos (lola e dois primos gêmeos, de dez anos) e duas surpresas desagradáveis, envolvendo a irmã, cecília, e o próprio robbie: a leitura de um bilhete escrito por robbie para ceci (quero beijar sua boceta molhada) e o flagra no momento em que os dois transavam na biblioteca da casa da família. estava completo o dia de briony. havia motivo, na cabeça da menina, para incriminar o garoto pobre cujos estudos foram bancados pelo pai das meninas. 
consequência desses fatos: robbie preso, cecília arrasada, um amor impossibilitado de ser vivido, uma família, a partir de então, dividida. 
a narrativa prossegue mostrando robbie nas forças armadas durante a 2ª guerra mundial, o pouco contato entre ele e ceci – por meio de cartas, como uma forma de manterem viva a paixão interrompida – e briony tentando receber o perdão da irmã, reconhecendo o erro que cometera. 
a menina de imaginação ímpar, que muito arriscara a escrita de histórias quando na infância, realiza o sonho de tornar-se escritora, alcançando, inclusive, bastante sucesso com seus livros publicados. e, já idosa, ao lançar seu 21º primeiro romance, ao qual dá o nome de “reparação”, narra a história de sua vida, assim como da de ceci e de robbie, a partir daquela noite que marcara todos eles. porém, no seu livro o casal se reencontra após a guerra e pode, enfim, viver uma apaixonada e sincera vida a dois, algo que, na realidade, não ocorre: ele morre na guerra, pouco antes de as tropas voltarem ao país, e ela falece, doente. ambos ainda muito jovens. 

escrita consciente e inconsciente
sem nunca ter sido capaz de escrever sobre o acontecimento que causou, briony consegue fazer isso no último livro, no fim da vida, como uma tentativa de reparar o erro que cometera, de ser perdoada pela irmã e pelo filho da empregada, oportunizando-lhes, na ficção, viverem o que em vida não puderam. e eu retomo a pergunta: até que ponto a escrita desse romance, por parte de briony, reparou o erro que ela cometera? a escrita é capaz de tal reparação? 
não desenvolvi esse texto para alcançar uma resposta. sinto essa questão com muitas variáveis, então que retomo um olhar para o fato: a quem esse ato de reparar faz referência? sendo assim, somente com o movimento de colocar-se no lugar do outro para dar conta de responder a isto. e a personagem, tanto no livro quanto no filme, não me pareceu curada da dor da culpa que durante toda a vida esteve com ela, percepção que me induz a pensar no quanto a escrita é apenas paliativa: nunca solução concreta e efetiva para as dores que carregamos conosco, e sim um meio de nos suportarmos, por mais que tentemos fugir delas a todo custo, pelo tempo que for. 
quantas são as vezes em que escrevemos a alguém com o intuito de nos desculparmos, de reatarmos um elo rompido por algo que causamos? e quando escrevemos para acusar, para gritar aquilo que nos dói, causado, em nossa opinião, pelo outro? é também a escrita como reparação, é também, a meu ver, esse almejo – que nos persegue e nós perseguimos – de colocarmos a vida em um trilho equilibrado, envolvendo princípios como justiça, talvez coerência ou moral. 
é suficiente tal escrita? ou, ampliando a indagação: em algum momento a escrita nos é suficiente? torço para que não, uma vez que a incompletude nos é necessária. prefiro pensar que escrevemos também como uma forma de conversarmos conosco mesmos e com aqueles que nos leem, de olharmos para o que nos rodeia, de nos ressignificarmos. daí a possibilidade de alcançarmos o que nos é consciente e inconsciente, ora desejando uma sensação de cura, ora uma de fuga. 
por exemplo: tenho desgostado do que escrevo – reconhecendo o quanto isto é um clichê. esse não gostar se deve a uma repetição: parece que todo texto meu é o mesmo há anos. acredito que seja o ritmo de escrita e de leitura que consegui fazer presente em mim – fator importante para quem inicia – entretanto, um vício que pode impedir-me de apresentar algo que eu considere novo. e essa situação se deve ao fato de que escrevo principalmente – e quase apenas – aquilo que vivo e conscientemente sinto. é uma escrita agarrada às vivências, ou seja, uma zona de conforto. 
mais difícil do que criar uma voz narrativa talvez seja liberar-se dela. e o caminho para uma mudança nessa quase crise-existencial-criativa passa por produzir o que não foi vivido, ficcionalizar de fato, ir para além daquilo que penso sobre mim e de como os outros possivelmente me veem. como me disse o enzo uma vez, “nesse além você se sabota e é capaz de um novo estilo”. e, de repente, alcanço traumas e culpas que saracoteiam dentro de mim. 
acredito nessa dupla possibilidade, de quem se esconde e se escancara a partir do texto, como se fosse possível optar por apenas uma forma. não é. mostramo-nos mais do que pressupomos mostrar, da mesma maneira que deixamos escondidas características nossas, por mais que tentemos escancará-las. isto porque é a escrita fuga e aproximação. dos outros e, principalmente, de nós mesmos.  

ítalo puccini

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

o alento no excesso


     o cristovão tezza também é bom nisso de ser cronista. e me utilizo aqui do também porque como romancista ele já me ganhou. e cronicando com ele – ou seja, lendo suas crônicas reunidas no livro “um operário em férias” – deparei-me com um parágrafo no qual me detive: “Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequação, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo”. e eu sinto assim a minha tentativa de escrita, pelo viés da ressignificação do que é vivido enquanto crise existencial.
     das minhas sessões de psicoterapia psicanalítica, por exemplo, sempre retorno e escrevo breves frases sobre aquilo de que falei, tornando mais compreensíveis e assimiláveis as angústias verbalizadas no set terapêutico. e os três anos nos quais me afastei da escrita sulcaram em mim marcas indeléveis, afagadas momentaneamente pela verborragia textual que me move nos últimos meses. e assim refaço o significado da palavra vazio e compreendo minha escolha pela arte, na adolescência, como um movimento para aplacar essa característica inerente à condição humana.
     porque eu acredito na existência do vazio e de uma veia artística em cada um de nós, sem significar consciência a respeito dela, muito menos conhecimento sobre como explorá-la. pois há um medo oriundo da arte – de quem a faz e de quem a recebe. um medo provocado pela arte por simplesmente existirmos, nós e ela. que talvez não seja medo e sim estranhamento, porque o novo assusta, sabemos. contudo, tememos mas não a largamos; é o canto do pai do mato: atrai-nos para comer nosso coração. e não há maldade nisso. a escolha é nossa de ir até ela ou de recebê-la quando rompe à nossa frente. e nos incomoda, muito. tira-nos o chão, desestrutura-nos certezas, ameaça-nos crenças. um rebuliço. 
     ao mesmo tempo em que é essa coisa tão bonita cantada pela elis em “essa mulher”: ser cantora, ser artista. talvez uma eterna inadequação sentida pelo sujeito diariamente a cada interatividade social da qual dificilmente se escapa por mais que se tente. é arte que brota nos poros a partir de cada detalhe do que se vive, momentos nos quais se entende a felicidade enquanto porvir e as cicatrizes marcas intransferíveis, constituíntes da individualidade de cada um. o elefante que vive dentro de mim, por exemplo, sou eu mesmo, e se comunica pela palavra e por modos de linguagem. 
     minha arte, pois, é a escrita, e escrever, para mim, é dar a cara a tapa. assim me sinto e por isso recorro a ela: pela crise, pelo vazio, pela angústia, por sentir-me inadequado, desafinado com o mundo, com as pessoas, ainda que no meu peito também bata um coração. escrever é para mim consertá-lo. porque é importante enfiar o dedo na ferida e deixá-la sangrar até curar, para dela brotar o que existe quiçá no inconsciente. e essa escrita pseudorracional esconde aquilo que dói e esconde o motivo de ela existir: volteia, permeia, não aprofunda sem que nos permitamos a. cutuca e fere, enquanto elemento de cura, se assim a quisermos. 
     às vezes, penso, é no excesso que encontramos alento. quando a sensação de vazio é tanta que corremos a preenchê-la: por medo, por fuga, por fraqueza. ser humano é isto. e como é bom dizer que não está tudo bem, que não mais é possível ouvir gonzaguinha, por exemplo, sem que o corpo rasgue por dentro – palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando. pela escrita.

ítalo puccini

quarta-feira, 31 de julho de 2019

pronomes interrogativos

quando
se confundiu
vingança
com um prato
que se come
frio

quem
se esqueceu de que
é emoção
a vingança
e portanto
quente

como viver
com a consciência
de que
uma vingança
nunca será
plena

qual o sentido
e a eficácia
de uma vingança
silenciosa
e desconhecida
ao alvo dela

quanto desejá-la
se a vingança
é um dedo
pressionado
contra
a própria dor

o que
é a vingança
se não
uma tentativa
frustrada
de autoproteção

ítalo puccini


segunda-feira, 10 de junho de 2019

crônica - ou ensaio - à la hatoum


     não conhecia o milton hatoum cronista. deparei-me com o livro “Um solitário à espreita” e o comprei, fazendo vibrar o prazer, pouco comum a mim, de uma compra inesperada. o título, aliás, é muito condizente com o jeito de ser do autor: um sujeito recluso, pouco midiático e de publicações quase raras. autor de apenas cinco romances e um livro de contos: com dois deles, “Relato de um certo Oriente” (1999) e “Cinzas do Norte” (2005) foi vencedor do jabuti de melhor romance; com “Órfãos do Eldorado” (2008), segundo colocado no mesmo prêmio; com “Dois irmãos” (2000), conquistou o terceiro lugar; e “A noite da espera” é o mais recente, lançado em 2017. quatro dos cinco romances são premiadíssimos, no brasil e no mundo, publicados em dezessete países até hoje. 
     a característica da crônica desse escritor amazonense é a de esticá-la um tanto a mais do que costuma ser comum ao gênero. são crônicas-quase-ensaios, nas quais o autor apresenta um fato cotidiano nos primeiros parágrafos para chegar ao, digamos, ponto-chave do texto, e então abordá-lo por mais algumas tantas linhas. isto na maioria das 94 crônicas que compõem o livro, algo que não diminui sua escrita, pelo contrário: apresentar uma unidade no modo como escreve demonstra segurança e a mim, enquanto leitor, muito satisfaz. 
     é dessa maneira que o autor desenvolve, por exemplo, “Liberdade em Caiena”, crônica que me despertou a escrever esta com a qual, até aqui, enrolo o leitor. no começo do seu texto, hatoum aborda a dificuldade que tem de conviver com tantas informações em um ritmo tão frenético de tempo, o que lhe resulta deixar passar a oportunidade de participar de debates, palestras e até encontros entre amigos: “Agora, ao fazer uma faxina na caixa de entrada, notei que havia 122 mensagens não lidas”. desse ponto para chegar ao tema: o convite, recusado pelo autor, por não ver a mensagem em tempo, para ir a caiena, capital da guiana francesa, lugar de muitas lembranças trazidas da infância e de seu avô.
     e o que me conduziu a escrever este texto foi esse modo de vida digamos que desacelerado do escritor amazonense, com o qual, a meu ver, muito se pode aprender, uma vez que, atualmente, não somos mais ensinados a viver ligados à tecnologia, e sim o contrário: nascemos imbricados a ela e precisaríamos, urgentemente, aprendermos a nos desligarmos mais. 
      algo assim como o que foi proposto pela jornalista eliane brum, quando escreveu uma crônica intitulada “É urgente recuperar o sentido de urgência”, na qual aborda o quanto nos tornamos dependentes do imediatismo, nas diferentes esferas sociais, privando-nos da nossa intimidade em prol de nos mostrarmos disponíveis a todos a qualquer momento do dia, atitude esta que eu vejo soar como uma pseudo-demonstração de atenção e respeito pelo próximo. assim argumenta brum: “Estamos vivendo como se tudo fosse urgente. Urgente o suficiente para acessar alguém. E para exigir desse alguém uma resposta imediata. Como se o tempo do ‘outro’ fosse, por direito, também o ‘meu’ tempo”. são tantas as frases certeiras que convido o leitor a ler a crônica dela na íntegra, percebendo, assim, a existência de outras maneiras de viver, oriundas de uma reflexão que envolve principalmente o ato de respeitar a si mesmo nesse emaranhado virtual que nos abraça e do qual não conseguimos, a priori, desgarrarmo-nos - afinal, alerta-nos a escritora, “Viver no tempo do outro – de todos e de qualquer um – é uma tragédia contemporânea”, da qual, parece-me, hatoum tem a mesma consciência.
      e é uma forma de preenchermos nosso ego, acrescento. ao mostrarmo-nos dispostos a qualquer momento do dia para sermos interrompidos de diferentes maneiras – sms, ligação telefônica, redes sociais, whatsap, visita-sem-combinação-prévia – disfarçamos o nosso egoísmo sob a veste falsa de dar atenção ao outro. ao expormos tal disponibilidade, estamos na verdade gritando para que nos procurem, para que nos olhem, para que curtam – o mais rápido possível – aquilo que acabamos de postar. e retribuímos o ato como forma de garantir que ele nos seja devolvido. 
      é o nosso ato de covardia, sobre o qual escreve o romancista jonathan franzen, num ensaio intitulado “Curtir é covardia”, no qual o autor apresenta um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro, uma vez que o amor, enquanto verdadeiro, denuncia a mentira de que o mundo tecnoconsumista – e imediatista – exige de nós compreensão: “Se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida”.
      os comportamentos de milton hatoum e eliane brum (ela por exemplo abriu mão do aparelho celular e faz questão de ser contatada somente por e-mail) são aqui cronicados não como referência em termos de relações humano-sociais, e sim como alternativa, eco do que propôs franzen: um comportamento consciente, não-dependente, muito menos falso ou egoísta. 
      sendo assim, não defendo nesta croniqueta – que está mais para um ensaio – um posicionamento de contrariedade radical. se escrevo sobre esse assunto é porque a mim ele ainda se apresenta bastante confuso, tamanha a linha tênue que nos separa de uma dependência e de uma aversão tecnológica e social, ambas atitudes extremistas que nos implicam perdas. uma vez que somos bebês no contato com essa ultramodernidade na qual estamos inseridos, nada melhor do que o exercício de nos olharmos dentro desse meio, porque mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, há décadas nos cantou o renato.

ítalo puccini

segunda-feira, 27 de maio de 2019

eu desejo, eu escolho, eu existo




     “eu desejo”, “eu desejo”, “eu desejo”. as primeiras cenas do filme “caminhos da floresta” apresentam esta frase. são quatro personagens que surgem na tela, revezando-se: joão deseja que sua vaca – milke white – dê leite;  cinderela deseja poder ir ao baile no palácio do rei; e o padeiro, mais sua esposa, desejam poder ter um filho. todos movem suas vidas a partir e em função desses desejos. ainda, um pouco mais pra frente nesse musical, surge a bruxa, cujo desejo é o de desfazer o feitiço lhe imposto pela própria mãe, o da feiura, que assim a transformou quando o pai do padeiro roubou delas os feijões mágicos. 
  e dessa forma esses desejos e histórias de vida se entrelaçam na narrativa, cuja trama paralela são os contos de fadas “joão e o pé de feijão”, “chapeuzinho vermelho”, “cinderela” e “rapunzel”. da seguinte maneira: a bruxa diz ao padeiro e à esposa deste que eles somente poderão ter o filho que desejam caso consigam para ela quatro elementos no meio da floresta: uma vaca branca como leite, um capuz vermelho como sangue, uma mecha de cabelo amarela como milho e um sapatinho tão puro como ouro. pois o casal vai até a floresta e lá se depara com: joão e sua vaca branca – a quem dão feijões mágicos em troca do animal; chapeuzinho e seu capuz vermelho; rapunzel e seu cabelo amarelo; cinderela e o sapatinho de ouro. 
  eis a trama desse musical, dirigido pelo mesmo diretor de “chicago”, rob marshall, que alterna cenas cativantes com outras superficiais e até mesmo vergonhosas, tal qual a canção apresentada pelo príncipe e seu irmão. porém, a reflexão que mais me martelou a cabeça durante o filme vem daquela primeira frase: “eu desejo”, remetendo-me ao livro de jorge forbes, “você quer o que deseja?”, cujo princípio, com base na psicanálise, é o de nos levar à pergunta-título: será que realmente queremos aquilo que desejamos?
  os personagens de “caminhos da floresta” percebem, mais para o final da narrativa, o quanto se equivocaram com relação ao que desejavam, afinal, conforme lacan, “desejar é sempre desejar outra coisa”. por exemplo: o padeiro se preocupa em ser um pai pobre e tão ruim quanto foi seu próprio pai; cinderela se desencanta com a vida no palácio; e a bruxa descobre, com a juventude restaurada, a perda de seus poderes. desse modo, eles repensam as próprias vidas e os caminhos que trilharão a partir daquele momento quando alcançaram aquilo um dia desejado. 

     esse filme me relembrou de um livro que anualmente lia para algumas turmas minhas: “joão e os sete gigantes mortais”, de sam swope, cuja história apresenta um personagem chamado joão, menino órfão, abandonado em uma aldeia quando bebê, e que lá cresceu, solitário, odiado por todos e considerado um menino mau, mau, mau. porém, diferentemente dos personagens do filme de rob marshall, joão tinha um só desejo e uma certeza sobre este desejo: queria encontrar a sua mãe. pois bem, a história se delineia para o leitor mostrando caminhos pelos quais o personagem principal passou para quem sabe alcançar o seu desejo. o enredo, de modo básico, é: um dia, saindo da aldeia onde não era bem quisto, ele encontrou um homenzinho, dividiu com este uma maçã, e recebeu, em troca, um feijão mágico, com o qual joão fez um pedido: quero minha mãe. nesse momento, apareceu diante dele uma vaca, e com ela o menino seguiu em frente, enfrentando gigantes mortais que rondavam a aldeia. 
     joão, ao contrário dos personagens de “caminhos da floresta”, queria exatamente o que desejava. pediu a mãe, recebeu a vaca, e não desistiu, muito menos mudou de ideia. porém, o que há de semelhança entre os personagens dessas duas histórias é que todos, independentemente do que sentiram após as escolhas que fizeram, antes disso assumiram uma decisão, escolheram um caminho, por consequência abrindo mão de outro e daquela vida que até então tinham. dessa forma, pois, todos exerceram a existência em caráter prático, de acordo com a analogia a descartes, proposta por forbes: “para tomar decisão, é necessário que a pessoa se pense, ou seja, penso, logo existo”. e se, ao pensar eu existo, ao desejar eu decido.

ítalo puccini

segunda-feira, 6 de maio de 2019

não é impossível ser feliz sozinho

     e me desculpe, tom, se a partir do título estabeleço um diálogo. veio-me tão forte que desejo expor sem cerimônias. porque algumas frases sabem ser porradas, cabendo-nos, então, bem utilizá-las com essa função. é o caso. 
     quem é que nunca teve medo de amar, não é mesmo, tom?
     o pescador, por exemplo, tem dois amores. um bem na terra, um bem no mar. 
     às vezes, é saudável ser sozinho, você não acha? até a beleza passa sozinha, a da garota de ipanema. acredito que de conflito o mundo já está repleto, portanto, um cadim de paz é sempre bem-vindo. e com isso defendo a ideia de que muitas das relações que estabelecemos com as pessoas nos causam dores e infelicidades. o que era para ser bom, assim não o é. fundamental é mesmo o amor, sem dúvidas. porém, é possível amar lá de longe, lá do mar, daquilo que não sabemos contar. o que nos encaminha a relativizar esse estar sozinho: isoladamente numa ilha não vivemos, então sozinho não somos. é condição humana básica a interação com outros seres, afinal, até mesmo robinson crusoé criou formas de sentir-se acompanhado na ilha onde esteve por mais de trinta anos. contudo, desassociando-nos da condição amorosa, por exemplo, torna-se possível tal viver. sendo assim, confundindo-me todo e quase vulgarmente falando, dá e não dá para ser feliz sozinho. 
     pois há quartas-feiras em que é só jogar a rede. e puxar. 
     joão ninguém que nos diga. 
     mudando um pouco de assunto, e ouvindo outra música, no peito dos desafinados também bate um coração, canta você. e eu leio a palavra desafinados para além do significado básico de alguém que não canta afinadamente: desafinado sou eu, muitas vezes grosseiro; desafinado somos nós, incompreensíveis e insatisfeitos; desafinada é a vida, essa alternância de sentires e razões. e que bom. seria tão mais desgastante se nos mantivéssemos sempre os mesmos, não é? tão insuportável se todo o dia acertássemos acordes e tons. vezemquando é válido ser vinícius de moraes. 
     quem não pede perdão nunca é perdoado. e também é preciso dizer adeus. à insensatez. 
     é pau é pedra é o fim do caminho. é o apito da fábrica de tecidos. ora é o corpo na cama ora é a lama é a lama. é a tristeza que não tem fim, a felicidade como a pluma que o vento vai levando pelo ar. que culmina com o medo matando o coração, afinal, é desconcertante rever o grande amor. e se você faz uma canção para esquecer luiza, tom, há quem escreva textos para exorcizar paixões também. minha alma, por exemplo, não canta, ela escreve. mesmo que seja um texto assim tão desprovido de energia. como uma vez me disse uma amiga: é que nos falta intimidade, a mim e a ti. 
esperemos, pois, o passarim pousar. 

ítalo puccini

domingo, 28 de abril de 2019

o que é saudade?


     um dia a josi me disse que o sentimento de saudade, pra ela, representa paz, porque, ao sentir saudade de alguém, ela se sente em sintonia com este alguém, como se um vivesse em estado de plenitude dentro do outro, de modo que esse sentimento – a saudade – pra ela nunca é dor ou sofrimento, mas aconchego e reciprocidade. e, assim, diferenciamos saudade de falta, esta responsável por machucar porque associada à perda e ao distanciamento eterno, como se cortassem um pedaço de nosso corpo, como se arrancassem de nós o sentido da existência. 
      e essa confusão de sentires e conceitos se dissemina socialmente muito em virtude da quantidade de músicas que discorrem sobre a saudade enquanto sinônimo daquilo que é falta e carência – segundo a definição do dicionário, inclusive, “saudade é sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, acontecimento ou lugar”, mas eu prefiro a definição da josi. e talvez a letra de música que melhor exemplifique esse conceito social seja “pedaço de mim”, do chico, na qual ele repetidas vezes se refere à pessoa amada assim “oh, pedaço de mim, oh, metade afastada/arrancada/exilada/amputada/adorada de mim”, definindo saudade como “pior tormento, pior que o esquecimento, dói como um barco, dor latejada, uma fisgada, o pior castigo”. 
     há de se cuidar também com a errônea crença de que saudade é exclusividade da língua portuguesa, pois, derivada do latim, existe em outras línguas românicas, envolvendo outros conceitos semânticos: no espanhol, soledad, e em catalão, soletad, ambas com sentido de nostalgia de casa; e na romena saudade tem o mesmo conceito semântico de dor – diz-se durere – mais próximo do nosso significado usual. ou seja, na língua portuguesa se romantizou tanto esse sentimento que se popularizou o apego a ele como se exclusivo: somos possessivos até com as palavras. 
     de modo que lá fui eu novamente mexer com as pessoas mais ou menos próximas a mim, indagando-lhes: o que é saudade? e mais uma vez me senti em êxtase diante das respostas e de tudo o que as envolve, porque não é somente na resposta que presto atenção, mas também na escolha das palavras, no tempo em que elas vêm, na reação de cada um diante das minhas provocações, quando inclusive o silêncio, ou seja, a não-resposta, representa muito. e adorei a analogia que me apresentaram de que saudade é como quando se assiste a um show do artista preferido, e ele não volta para o bis: você espera vivenciar mais daquilo que foi tão maravilhoso, mas, mesmo diante da ausência desse a mais, você se sente preenchido em felicidade e plenitude pelo que recém-viveu.
     ainda, gostei de quem me respondeu com outra pergunta: “o que não é mais saudade?” – fiquei pensando no quanto é horrível querer se livrar de um sentimento do qual não se consegue – e também agradeço a quem demonstrou preocupação comigo: “tá tudo bem, ítalo?”. assim como foram divertidas as três respostas irônicas: “nunca senti pra saber”; “é o que você sente por mim”; e “é meu coração palpitando quando ítalo lembra que eu existo”. eu gosto da ironia enquanto demonstração de carinho.
      carinho às vezes é coincidência: uma pessoa me disse justamente estar escrevendo sobre saudade, e do texto dela eu destaco o dizer de que “saudade é o lado bom da falta”, pois essa ideia se aproxima do conceito proposto pela josi e também apareceu em outras duas respostas: “saudade é bom, a despeito de toda dor que carrega” e “saudade é uma falta que move, uma ausência que faz companhia”. e dessa maneira eu me despertei para outra definição, igualmente distante da ideia de dor associada a esse sentimento, de que saudade é uma aposta e só existe enquanto virtualidade: no encontro ela já deixa de ser e se transforma em prazer ou decepção. 
      e decepção é a acepção mais comum sobre saudade, sempre associada à falta, em especial na literatura, no cinema e na música. responderam-me ser a saudade: “formigamento no peito, um aperto que sufoca e queima um pouco a garganta”; “é um negócio completamente desnecessário”; “falta de algo que fez parte, que se confundiu um dia com aquilo que eu era”; “vontade de ter pra vida toda o que já não se pode mais”; “desejar o que se sabe que não existe mais”; “uma falta que a gente cria”; e “é prego, e o coração, martelo”. definição dolorosa e de igual viés poético essa última, reverberada em outras três: saudade “é o revés de um parto”; “é reflexo do meu eu de mim apartado”; e “é uma pétala a menos de flor”. 
      nessa perspectiva metafórica, canta o lenine que “saudade é um bicho grande / muito maior do que eu penso / quanto mais se expande, mais denso / quão mais denso, mais se expande / saudade é um bicho imenso”, em”bicho saudade”, letra na qual ainda se versa ser a saudade “um lindo bicho / que da fome se orienta” – inclusive, uma pessoa a mim respondeu associando saudade à fome, quem sabe significando serem ambas inerentes a nós humanos. 
      e sentem os animais saudade? também perguntei aos queridos e queridas. e a maioria acredita que sim, principalmente quando há vínculo de convivência com humanos e filhotes; há quem tenha certeza da presença desse sentimento nos demais seres – isto porque sentimento envolve alma, e alma os animais têm – mas também houve quem assegurasse que não, porque estudos indicam que por exemplo os cães, quando veem seus donos saírem, sentem como se estes nunca mais fossem voltar, de tal forma que a alegria no reencontro é um renascimento, não uma saudade. porém, duas pessoas consideraram a saudade nos bichos presente justo no momento do reencontro e não enquanto um sentir a distância. 
      na próxima croniqueta, pois, direcionarei perguntas aos animais, afinal, conforme versa drummond, “o homem não é assim tão importante” – drummond, aliás, morreu doze dias após a morte da filha, diz-se que de saudade. 
      finalizo, portanto, novamente com a promessa de enviar a cada um dos participantes dessa entrevista uma playlist criada por eles mesmos, a partir das músicas que sugeriram a mim, momento no qual solicitei a cada um: envie-me uma ou mais músicas sobre saudade. afinal, conforme diz a pitty, em vinheta no novo disco, “saudade é vontade daquilo que já se sabe que gosta”, constatação à qual eu acrescento esta, de uma das pessoas a quem dirigi a pergunta-tema deste texto: “saudade é o desejo de reviver momentos de prazer e alegria com aqueles que nos fazem bem”.

https://open.spotify.com/playlist/0teWmczLxRt4aJRED199aQ?si=RbqMZMXrSUCcN9B37y_1xg

ítalo puccini

domingo, 7 de abril de 2019

tierra debaixo d'água

      hoje uma música morou em mim, levou-me à praia, ao mar, àquilo de que mais sinto falta, àquilo de que me afastei há anos. eu me afastei de mim mesmo há anos, e quando a consciência disso atravessou o esconderijo e se estabeleceu diante de mim, eu esmoreci. então, planejei uma maneira de fugir da minha memória: fumei um cigarro, caminhei, fiz compras, pintei, assisti a uma partida de futebol. e ouvi: “o mar promete terra seca ao viajante exausto”.
      porém não há facilidade em se alcançar o mar.
      eu era o viajante exausto, que não visitava mais o mar, logo, sem a promessa da terra seca. eu olhava para mim e para o universo de símbolos e pessoas ao meu entorno como se estivesse ausente, todo dia, vagando pela história da minha própria vida, “sonhando a cada dia em alcançar a praia”. e a mim, ao contrário do que canta a canção, sempre me acontece pensar que nada é para sempre, então eu me deixava mergulhado em frieza e infelicidade. eu desisti e me deixei, sabendo que “o mundo seguirá girando quando já não há mais nada”. 
     eu esperava pela “vida que sempre guarda algo que supera a melhor das fantasias”, mas era preciso que viesse de dentro de mim o inesperado. foi quando toda a dor me existente eu direcionei ao outro, a quem me alimentou dor – a dor que advém do desejo de não sentirmos dor. disparei, pois, “partes de poemas que eu tinha abandonado”, rimas de uma mente fatigada, melodias perdidas e descobri que a vingança – principalmente retórica e silenciosa – é sentimento libertador. 
     entretanto não suficiente. 
     às vezes, o trauma, vestido de lembrança esporádica, rouba-nos a coragem de viver o presente e exerce sobre nós dúvidas capciosas, originadoras de angústias outrora escondidas. assim, sentindo-me manipulado pelo passado, embaralho os quereres e desvirtuo a realidade, visualizando por exemplo maldade em ações nas quais ela não existe. e a desconfiança diante daquilo que se vive é sentimento corrosivo e sufocante, é pior que amígdala inchada e unha encravada ao mesmo tempo.
      escrevo, pois, para alcançar a praia, entrar no mar e debaixo d’água gritar até renascer, feito fênix, formando-me novamente um feto: sereno, confortável, amável, completo, em especial sem contato com o ar. porque o ar me faz provar um gosto de final, ele peca em excesso de seriedade e aqui fora sufoca e dificulta a mim inclusive o engolir a saliva – lugar onde o trauma faz morada também e alimenta a insegurança. e debaixo d’água tudo é mais bonito mais azul mais colorido: só nos falta respirar. 
      mas temos de respirar.
      e a escrita a mim é como um aparelho médico que auxilia esse processo automático – e portanto inconsciente, no entanto de tanta exigência – denominado respirar, é ela quem me conduz à tierra, ao mar, ao debaixo d’água, a um lugar por agora desconhecido, que me lembra de freud: não é nossa a casa onde moramos. e eu ainda não me tornei morada de mim mesmo, por enquanto, “porque faz tempo que eu já me fui, pois sempre estou partindo” e reconheço o erro em ansiar esse desejo, pois o vazio não apenas está em mim, ele me é, eu o sou. 
      logo, é importante aprender o exercício da resiliência, e para isso nesse momento eu vivo com o objetivo de não saber, ou seja, de desconhecer o que acontece ao meu entorno, uma vez que o ato de saber me causa temor, associado ao trauma de me sentir manipulado, usado e traído. assim, quando eu não vejo, não ouço e não sei, eu me defendo, e essa defesa não é do outro, mas de mim mesmo, do meu passado, de marcas ainda indeléveis, amenizadas quando entro no mar e escrevo. 

ítalo puccini

domingo, 31 de março de 2019

des


      assim sem acento é prefixo de oposição, negação ou falta; com acento – dês – é preposição antiga, substituída atualmente por desde, também ação do verbo dar conjugado na segunda pessoa do singular no presente do subjuntivo – que tu dês atenção a quem te ama – e no imperativo negativo: não dês atenção a quem não te quer. e entre essas duas acepções da palavra me interessa mais a primeira, mesmo que as frases de exemplo da segunda sejam muito oportunas.
      meu olhar para a palavra des enquanto falta existe desde que li, há anos, a terceira parte do “conto de facas”, do enzo, cujo título é justamente des, e nos textos ali presentes se entoa a dor de um fim de relacionamento, sendo o primeiro texto dessa parte justamente o motivo do término: “Descaso sm. 1. desatenção 2. falta de importância ou cuidado 3. desconsideração 4. neblina que se perfila nos olhos daquele que perdeu a única pessoa com quem se casaria em vida; espera, breu branco”. e nos demais textos do livro enzo trabalha com palavras como descuido, desejo, desterro, descida, descrença, desaparecer, desperto, descartar, desconhecido e andes. 
      segundo enzo, ainda, des é nome a ser dado a quem abandona a pessoa amada – no texto intitulado “Quatro minutos de olhar”, há a seguinte explicação: “Texto sobre Yashodara, a esposa que foi abandonada por Sidharta Gautama, o Buda. Seu des”. e esse significado desde então mora em mim, mais ou menos latente de acordo com os acontecimentos cotidianos e com a intensidade da memória nas veredas das vivências. de modo que minhas recentes separação matrimonial e demissão profissional me reacenderam essa lembrança.
     pois há poucos dias eu criei uma playlist com o propósito de reunir músicas cuja temática fale sobre o sentimento de falta do eu lírico, oriunda de um abandono amoroso, ou seja, que contenham letras expressivas de mentiras sinceras, migalhas dormidas, raspas, restos e pequenas porções de ilusão – atitudes típicas de uma pessoa apaixonada quando em desespero diante da perda de um amor. não exatamente porque eu vivencie tal caso, e sim devido ao meu interesse por esse recorte poético: não há nada melhor do que ouvir canções sobre dores amorosas quando estas não compõem o seu ser naquele momento. 
      e eu escolhi, também, saber de algumas pessoas próximas palavras cujo início seja com des, com a finalidade de ampliar o repertório de significados possíveis a essas três letras. e a experiência foi sensacional, a começar pela quantidade de palavras propostas por cada um dos convidados a esse exercício de pensar: houve quem me dissesse uma só palavra, foram duas pessoas – uma disse deslexia, enquanto a outra, despacito – escolhas bastante representativas de cada uma. em contrapartida, vieram 88 palavras de uma só pessoa, bastante destemida. e um convidado teve a desfaçatez de não participar: xablau pra você, irmão. 
     as palavras mais repetidas entre os dezessete participantes foram desespero, desdém e desculpas, ditas por sete deles, e dentre essas a de que eu mais gosto é desdém, pela sonoridade – gosto também, pelo som, de desditoso, deslize, desvario, desapego, desfile, desuso, desleal, desumano, deserto, desvio, desvelar, desaguar e desmembrar. inclusive, foi pensando nesses diferentes aspectos de se olhar para uma palavra que eu constatei quantas, por mais que comecem com esse prefixo cujo significado é de oposição à ideia da palavra original, não simbolizam sentido negativos, até mesmo porque são conjunções, preposições, conceitos ou variações verbais: destarte, desde, dessa, destro, desinência, desktop, desporto, design, destaque, desbravar, descer, desenhar e destino. e também há as que sugerem conotações positivas: desmentir, destemido, desinibido, destreza, despir, desejo, desencalhar, desbloquear, descomplicar, desarmar e desabafar.
     eu procurava, desde o início da brincadeira, por quatro palavras: descaso, desapaixonar, desonra e deslembrar. e elas apareceram assim: a primeira, três vezes; a segunda, duas vezes; a terceira, uma única vez; e a quarta, nem uma vez – só a encontrei no grande sertão do guima. enquanto tantas outras, ainda, alegraram-me porque tiradas do esquecimento em que viviam no meu mundo invertido: desordem, desatino, déspota, desdêmona, desamor, descanso, descaminho, desinteirar, desalinho, desalinização, desiluminador e desvelar. 
      por fim, gostei da reação dos participantes – menos do completo silêncio de um deles, atenção devidamente já chamada nesta croniqueta. a maioria não me questionou o porquê da minha intervenção, que foi: diga-me palavras que comecem com des. porém, alguns reagiram, mais ou menos surpresos, mais ou menos desconfiados, mais ou menos indignados, mais ou menos felizes: um me disse “tá faltando google na sua vida”,  demonstrando fina educação; três expuseram cansaço ou preocupação ao perguntarem “ajudei?”, “deu?”, “tá bão?”; um se assustou e questionou “assim do nada?”; outro dissertou raivosa indignação diante da minha recusa em explicar o motivo do meu pedido; e um me deixou muito feliz ao dizer que nunca mais pararia de pensar nessas palavras. 
     e esta croniqueta eu espero que cumpra essa função também, de instigá-los a continuarem à procura de palavras, no modo mais aleatório possível, relembrando-as, ressignificando-as e compartilhando-as. e a recompensa por mim prometida a cada um dos convidados – grato. daqui uma semana você receberá a recompensa – é este texto, em conjunto ao link da playlist, esta na qual há pelo menos uma música sugerida por cada um deles sobre dor amorosa, pra ser ouvida nos momentos bons e ruins, a depender da coragem e do impacto de um des na vida de cada um. 
ítalo puccini

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

são vírgulas

      as pernas, inclusive, têm vida própria, elas não sossegam, mesmo o corpo assim estando, parado, como exemplo, ao sentar-se para um lanche, uma refeição, alguma atividade de estudo ou trabalho, este corpo citado às vezes relaxa, mas elas, as pernas, as irrequietas pernas, balançam ao ritmo de algo que apenas a elas compete saber, parecem dançar ao som de alguma música, por ninguém mais ouvida, somente por elas, levando-as a um abrir e fechar, frenética  ou calmamente, entrecruzadas ou espaçadas, juntas-batendo-joelho-com-joelho, a um lado e ao outro, ritmadas, ou, enquanto uma descansa, a outra sacode para cima e para baixo, para cima e para baixo, descontroladamente, como se em poucos segundos fosse desgrudar-se do corpo e sair quicando, ainda ritmadamente, ainda ao som daquela música que lhes é própria, ou, também, há a perna que balança quando sobrecruzada à outra, típica posição culturalmente imposta às mulheres, porém tão comum aos homens, aos que são capazes de realmente cruzar uma perna sobre a outra e deixá-la a balançar, como se ali coubesse uma criança ou um cachorro ou um gato recém-nascidos, dependurados nesta perna que, da mesma forma, com igual ritmo, sobe e desce, sobe e desce, talvez assim descansando, talvez simbolizando a inquietação daquele a quem elas pertencem, ou são eles que a elas pertencem, não se sabe, mas elas não param, as pernas, enquanto parado está o corpo, há um movimento contínuo, independente, comum a todos os seres humanos, em alguns mais frenético, em outros menos perceptível, porém existente, constante, apesar das mudanças de posições e de ritmos, são gestos entre vírgulas, condutores de uma linearidade rítmica ao corpo no momento de este levantar-se, quase uma intervenção artística, uma espécie de empurrão justamente para este ato de levantar-se, algo inclusive com nome próprio, a síndrome das pernas inquietas, ou síndrome de ekbom, diagnosticada clinicamente, cujos sintomas envolvem alteração de sensibilidade e agitação motora involuntária, palavras bonitas, mas que não alcançam o significado preciso deste ato, ao contrário, podem até mesmo distorcê-lo, através da alegação de uma qualidade de vida comprometida ou da sensação de desconforto, outras expressões consideradas importantes, porém irrisórias, não há dores, não há formigamentos, não é predisposição genética ou ausência de dopamina e ferro em áreas motoras do cérebro que provoca este balançar das pernas, a ciência não alcança o que a arte faz acontecer com elas, as pernas, essa música própria, essas vírgulas, esse gesto espalhafatoso, deve ser realmente bom balançá-las,

ítalo puccini