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sábado, 5 de setembro de 2020

haicais de brás cubas

i
meu pai
a aparência
da razão contra a sandice
 
ii
prudêncio
meu cavalinho da infância
o adulto do vergalho
 
iii
sabina
a prataria enquanto
herança para uma copa digna
 
iv
cotrim
o caráter como
efeito de relações sociais
 
v
marcela
meu amor
um cativeiro pessoal
 
vi
eugênia
olhos pretos e tranquilos
mas coxa de nascença
 
vii
virgília
um pêndulo
um instante menos de vida
 
viii
lobo neves
supersticioso e ambicioso
e corno
 
ix
d. plácida
cúmplice
por cinco contos
 
x
eulália
viva ou morta
eu nada senti
 
xi
o quincas humanitas
entre o osso e o cão
nem todos os problemas valem 5 minutos de atenção
 
xii
dormir
um modo interino
de morrer
 
xiii
das memórias
às negativas
o legado das nossas misérias
 
ítalo puccini 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

tempo, tempo, tempo, tempo,

és um senhor tão bonito, um dos deuses mais lindos, sabemos, eu e caetano. compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, também sabemos, caetano e eu. contudo, noves fora todas as suas qualidades, vou te fazer um pedido, tempo, ouve bem o que te digo: calma. ou, na linguagem contemporânea dos memes: seje menas. isto porque, à parte a liberdade poética do meu pedido, você me ocupa o pensar enquanto, ao mesmo tempo, eu o ocupo pensando em você. tão complexo quanto desesperador.

gosto muito dos versos do renato russo em “tempo perdido”, de que “temos todo o tempo do mundo” e “temos nosso próprio tempo”: sobre o primeiro, a imensidão do infinito, abstração tão necessária quanto qualquer ilusão que alimentemos; e, a respeito do segundo, gosto da ideia de ter meu próprio tempo, de torná-lo meu, apesar de todo o esforço mundano para tirá-lo de mim e preenchê-lo com aquilo que não me interessa. conforme canta o lenine, em “é o que me interessa”: “daqui desse momento / do meu olhar pra fora / o mundo é só miragem / a sombra do futuro / a sobra do passado / assombram a paisagem”. é “a saudade de um tempo que ainda não passou” o tempo todo do mundo que temos pela frente. e que de nós querem usurpar.

sinto que 24 horas para um dia é exagero. revolto-me, inclusive, quando minhas energias se esvaíram e ainda há o que se cumprir até que se encerre um dia e se possa descansar para o próximo. e, igualmente, 12 meses em um ano considero excessivo. até mesmo 30 ou 31 dias em um mês me incomodam. de modo que durmo, durmo muito, o máximo que meu corpo aguenta, e mesmo assim é pouco, em comparação a todo o tempo acordado e envolvido em afazeres. durmo enquanto forma de protesto contra uma vida cujo ritmo me parece a causa de doenças variadas, físicas e emocionais.

afinal, quanto mais saudável seria se: um dia tivesse 20 horas no máximo, sendo 8 destinadas a dormir, 6 a 8 envolvidas com o trabalho, restando outras 4 ou 6 para escolhas pessoais; um ano, 10 meses, e no mínimo 1 de férias para todos; cada mês fosse composto por 28 dias, distribuídos em 4 semanas de 7; e a semana se dividisse em 4 dias de trabalho e 3 de descanso e lazer. seríamos mais saudáveis, física e psicologicamente. mas não. tornamos o mundo nisto que drummond, lá em 1945, chamou de “nosso tempo”, ainda tão atual: “é tempo de partido / tempo de homens partidos”. uma doença coletiva regida pela tentativa humana de aceleração do tempo.

e uma degustação da minha utopia de vida saudável eu vivenciei no início do período de isolamento social provocado pela pandemia covid-19, em meados de março e início de abril, quando me habituei a dormir antes da meia-noite e a acordar depois das 8:00, inclusive descansando meia ou uma hora no início da tarde. eu pensava, à época: precisou instaurar-se uma pandemia para aprendermos a cultivar um estilo de vida mais cuidadoso com o corpo e a mente. tolice a minha. em poucas semanas, o ritmo de vida forçosamente se normalizou, imergindo-nos na loucura das atividades trabalhistas e educacionais que se iniciam quando nem mesmo o cérebro se conectou à realidade, obrigando-nos a uma exaustiva sequência de 10 a 12 horas de produtividade, seja física ou intelectual, necessitando-nos, nesse intervalo, ainda, cuidarmos de aspectos individuais variados – fisiológicos, familiares, corpóreos, alimentícios, pessoais. revoltei-me desde então, mesmo organizando minha rotina de maneira a dormir ao menos 8 horas por noite e a descansar após o almoço algumas dezenas de minutos; quando anoitece e ainda há mais horas a cumprir, mesmo que a lazer, eu emputeço.

ao contrário de mim, o valter hugo mãe, em entrevista ao jornal o globo, em abril, disse aproveitar a quarentena para trabalhar em dois livros distintos, de modo que sentia o tempo correr: “Quase todos os dias peço mais horas. Queria muito que um dia fosse de 30 horas, no mínimo. O tempo é pouco”. eu chorei quando li, de tristeza. sentimento que me envolve quando percebo meu dia ocupado nos três períodos por atividades profissionais ou compromissos inadiáveis – mesmo que estes sejam raros em minha vida. sinto-me desanimado se leciono, em um dia, pela manhã, à tarde e à noite, por exemplo, e revoltado se no meu turno livre me ocupo com obrigações de ofício. invade-me a sensação de impotência, de modo que a revolta sublimatória é meu escoamento: divido-me entre imaginar uma realidade alternativa, ler e escrever ou dormir. são as minhas formas de resistência, meus mecanismos de defesa diante dessa ameaça completamente abstrata e criada pelo próprio ser humano – aliás, é incrível nossa capacidade de alimentar aquilo que nos mata. acredito, também, que minha escolha pela leitura de livros extensos cujas histórias ocorrem em séculos anteriores – nos últimos meses li, por exemplo, três do machado de assis, três do lima barreto e o “anna karienina”, do tolstói – seja, inconscientemente, uma forma de confrontar a pressa com que nos obrigam a ocupar o tempo em um dia.

inclusive para escrever esta croniqueta eu demorei semanas, pois, quando pensava em me sentar para escrevê-la, escolhia dormir ou ler até dormir. e é o que eu desejo a todos nós, mais descanso, menos cansaço. no máximo um esforço para justamente encontrar uma maneira de se defender dessa ameaça diária, confrontando-a a partir de escolhas pessoais saudáveis. um bom e prolongado sono, portanto. nos 280 dias do meu ano utópico.  

 

ítalo puccini

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

hoje eu quero estar só

     parafraseando o lenine. o que não significa querer estar sozinho. e sobre solidão e multidão eu me recordo de uma temática bastante recorrente na literatura, talvez clichê justamente devido à recorrência: a dualidade aparência versus essência, muito presente por exemplo em machado de assis, que a abordou em variados romances e contos. a citar estes, creio que valem “o enfermeiro” e “um homem célebre”, além do romance introdutor do realismo no brasil “memórias póstumas de brás cubas”, afinal, nessas três histórias os personagens – principais e secundários – preocupam-se com o que aparentam aos outros, movendo-se, nessa obsessão, por vezes em caminhos contrários à essência que os constituía e por fim se sentindo sós de uma maneira bastante sofredora. o oposto de mim.
     em “o enfermeiro”, por exemplo, o personagem principal, narrador, após a morte do homem rude de quem cuidava, felisberto, sofre um drama de consciência, intensificado pela herança do enfermo, e a culpa o atormenta, num primeiro instante, ao questionar a possibilidade de ficar ou não com tal dinheiro, uma vez que fora ele quem matara o velho, após uma briga corporal – porém, as pessoas, não sabendo da causa mortis, elogiavam-no, por suportar durante tanto tempo cuidar de alguém tão rabugento. já o personagem de “um homem célebre”, pestana, vive e morre frustrado, em função de que, sendo um compositor de polcas, nunca assim se satisfez; queria mais, desejava criar obras clássicas. o destino lhe mostra que nascera para aquilo de que não gostava e assim morre bem com os homens e mal consigo mesmo.
     ainda, essa dualidade entre aparência e essência consta na poesia, encontrada nestes dois poemas: “mal secreto”, de raimundo correia, e “ante um cadáver”, de murilo mendes, sendo que o primeiro, poeta parnasiano, preocupado com o rigor formal do texto, escreve sobre o quanto a necessidade de ser socialmente aceito induz o indivíduo a agir de forma dissimulada:

“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

     enquanto o segundo, poeta modernista, mais afeito à liberdade formal, apresenta um olhar relacionando a aparência ao que há de inútil em nós, e a essência à solidão, afinal, é quando estamos sós que temos a oportunidade de sermos quem de fato somos:

“Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?

Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.”

     e é nesse viés em que me encontro e com o qual me identifico: de mais solidão e menos companhias, desde a infância enveredando por essa escolha, constatação que algumas sessões de análise terapêutica me ajudaram a assimilar e a entender enquanto comportamento essencial em mim, logo, distante de um sofrimento comumente associado à solidão, presente, a exemplo, nas ficções citadas. desse modo, uma vez isolado, sou “um homem mais sincero e mais justo comigo”, conforme canta o falcão, d’o rappa, e se atenua em mim uma suposta falta do outro, pois minha essência advém justamente da introspecção, do recolhimento e da energia poupada ao evitar interação desnecessária porque desinteressante. 
     daquilo que não me acrescenta eu me afasto, em terapia também compreendi. apego-me, pois, à literatura – à identificação com alguns escritos e à tentativa de escrever – da mesma forma que eu poderia abraçar-me à bebida ou aos encontros sociais. todas escolhas, sempre atreladas a renúncias. e como é bom saber se desprender daquilo com o qual não há identificação, sem necessidade de recorrer à extenuante aparência.

ítalo puccini