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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

ser tão mar

        



            minhas férias de verão eram na praia de itaguaçu. sessenta dias de mar. e durante os outros meses também íamos para lá, em algum final de semana, feriado ou recesso escolar. o pai morou em itaguaçu por alguns anos, e em minha memória eu guardei inclusive dias nublados e chuvosos. foi quando aprendi na infância a escutar aquela curva de água explodindo na própria água: a metalinguagem marítima. por isso o mar de um vendaval e de uma chuva sempre me encantou mais do que uma enseada de água salgada - mas nesta o nado faz mais sentido, parece-me.
        de todo modo, todo mar requer coragem. para ver tocar entrar tornar-se um. coragem da personagem mulher do conto "as águas do mundo", da clarice, de que paola me lembrou após eu enviar a ela bethânia cantando "e eu que não sei quase nada do mar / descobri que não sei nada de mim" - versos que moraram aqui durante todo um dia e a levaram a esse conto e a mim a este ensaio.
            e o conto de clarice começa com: "Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões."
            entrega feita com coragem, palavra à qual clarice chega no decorrer dessa narrativa: "A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem."
           entendi, clarice. por mais que seja para senti-la, eu a entendi. quando meu não saber me deslocou para o mar. tanto que este texto eu nasci há alguns meses para encarar esse medo: aprender a desver o mar gravado na retina da minha infância e criar uma nova cartografia dele em mim. incentivado por josi, que me propôs dois aprendizados - do deslocamento do mar e da escrita - a partir de um novo caminho geográfico do mar que eu navego, não mais do mar que me navega. ok, paulinho?
            nos últimos anos, tenho ido com frequência a itaguaçu. e quando nas sessões de análise também me desloco em memória para lá. naquele mar eu construí, a partir da solidão, meu ideal de mim mesmo. era eu o eu lírico de "dois barcos", do marcelo camelo: sobre estar só eu sabia no mar aonde eu ia. e para transformar o ideal do eu em meu eu ideal - um palíndromo psicanalítico - escolhi uma sequência de praias nos últimos meses do ano passado e em direção a elas fui, sozinho, acessando lembranças de quando eu ia visitar o pai em itaguaçu e assim sozinho me sentia. deslocar-me pela solidão, no meu caso, implica ressignificar as ondas de mar que formam as rugas do meu rosto. sinto-me mais próximo de rodrigo, o narrador de "a hora da estrela": "isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis".
            não preciso mais ser santiago, o personagem do hemingway em “o velho e o mar”, que aceitou a solidão como essência de vida e especialmente a materializou durante os 84 dias nos quais nada pescou. santiago lutou sozinho, com sucesso, para pescar um peixe de tamanho descomunal e depois, sem sucesso, para evitar que tubarões atacassem a presa. foi e voltou desacompanhado de outros humanos, mas não sem estabelecer conversas consigo mesmo e com os animais marinhos que cercavam o barco. lembro-me de sentir em santiago uma companhia na minha adolescência: minha solidão-leitora acompanhava-lhe a solidão-marítima e a paciência diante das frustrações diárias.
            não sei se rubel compôs a canção homônima ao livro de hemingway pensando em santiago, mas ao cantar "e se perder / calma" o poeta parece descrever o personagem. e me ensina a como agir diante das perdas.
            inclusive aprendi a escolher perder, às vezes. afinal, a vida não é sobre justiças. e são tantos os fantasmas que nós criamos.
          "perdido a me perder mar adentro" cantam o vitor ramil e o jorge drexler, em “viajei”. exatamente como me sinto nos últimos meses, aprendendo a perder - um duro exercício, segundo a rosane, com quem compartilhei leituras que fiz de versos da bishop e do drummond sobre o perder: para o poeta mineiro, "Amar o perdido / deixa confundido / este coração", enquanto a poetisa norte-americana reitera três vezes que "A arte de perder não é nenhum mistério".
         mas a mim sempre foi. a solidão me era uma derrota. que por mecanismo de defesa eu transformei em uma forma de vitória e arrogância - e nessa condição perder sempre é mais doloroso. e me lembro de que eu me dirigia para a frente do mar tentando entender o motivo da minha sensação de desamparo. "o mar [que] promete terra seca ao viajante exausto", cantado por ramil em "tierra" era o lugar onde eu acreditava ser capaz de preencher o meu vazio perdido e onde eu também fiz todo o meu pranto, parafraseando o teago oliveira.
            eu tentava incorporar os versos de “vento no litoral” e cantarolava junto com renato, deixando a onda me acertar e o vento levar tudo embora. o vento sardo cantado pro drexler e marisa: que levanta a onda e ondula o mar. meu vazio esticava minha solidão ao infinito. e quando eu via o mar algo me dizia que a vida continuaria e que se entregar seria uma bobagem. renato tinha razão. nando também tem: "quando a gente fica em frente ao mar a gente se sente melhor". ainda mais se o sentimos - o mar - como apenas nosso, tal qual nos versos de sophia de mello breyner andresen: “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim / a tua beleza aumenta quando estamos sós / e tão fundo intimamente a tua voz / segue o mais secreto bailar do meu sonho / que momentos há em que eu suponho / seres um milagre criado só para mim”.
            no ano passado, então, cantando belchior, eu morri. e, angustiado em uma crise existencial, o mar foi o lugar para o qual me dirigi, por sugestão da josi, que me disse "vá ao mar para se curar e se libertar". fui, não sem receio: olhava enviesado para aquele infinito. fingia não vê-lo. desviava do som dele. mesmo assim eu estava lá: no farol de santa marta, nas praias de laguna, na guarda do embaú, na praia do rosa, no campeche e, claro, em itaguaçu. lugares sugeridos por fox, com quem inclusive ainda vou percorrer de moto algumas praias da ilha de santa catarina em um final de semana qualquer adiante.
            aliás, se eu pudesse mudar de nome por um tempo, escolheria ser chamado de itamar. não somente por admirar o autor de "torto arado", mas porque este ensaio nasceu em mim nos últimos meses, momento em que as ondas habitaram minhas memórias e ecoaram essas sílabas: ita e mar.
                ser tão mar.
            não literalmente o sertão que vira mar como na canção "sobradinho", de sá e guarabira, mas metaforicamente sim: o medo que dá no coração de um dia me virar apenas sertão. o mar na minha história adulta de vida eu quero que se torne plural, pela liberdade. tal qual a personagem de clarice, que tomou o mar por dentro e nele caminhou. ela ganhou a liberdade na amplidão cantada por bethânia em “o quereres” de caetano. ela foi pela imensidão do mar e o abraçou na lua cheia.
                tenho certeza de que essa personagem anônima é a própria bethânia.
             eu ainda não aprendi a abraçar o mar na lua cheia, nem fui por sua imensidão ou amplidão. sinto que vou entrar verdadeiramente nesses versos quando começar a nadar no mar. inclusive, meu primo cadu tem nadado no mar de canto grande, em bombinhas, e a qualquer dia vou até lá conversar com ele entre braçadas e respiradas, deslocando a solidão, pelo afeto, no mar.
            experiência também vivida pelo personagem palomar, do meu xará calvino, que pratica sua natação vespertina: "Entra na água, afasta-se da praia, e o reflexo do sol se torna uma espada cintilante na água que do horizonte se prolonga até ele". o mesmo palomar que por vezes para diante do mar e tenta fazer a leitura de uma onda, enfrentando toda a complexidade que essa tarefa implica, para quem sabe poder cantar no mesmo tom que jobim: "agora eu já sei / da onda que se ergueu no mar". e palomar assim age porque "tende a reduzir suas próprias relações com o mundo externo e para defender-se da neurastenia geral procura manter tanto quanto pode suas sensações sob controle".
                o resto é mar, palomar. e é impossível ser feliz sozinho.
            por isso, inclusive, convido a quem teve fôlego de chegar até aqui para juntos nadarmos em mares versados em memória e afeto e melodias.
                bom mergulho a nós:

quinta-feira, 30 de julho de 2020

tempo, tempo, tempo, tempo,

és um senhor tão bonito, um dos deuses mais lindos, sabemos, eu e caetano. compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, também sabemos, caetano e eu. contudo, noves fora todas as suas qualidades, vou te fazer um pedido, tempo, ouve bem o que te digo: calma. ou, na linguagem contemporânea dos memes: seje menas. isto porque, à parte a liberdade poética do meu pedido, você me ocupa o pensar enquanto, ao mesmo tempo, eu o ocupo pensando em você. tão complexo quanto desesperador.

gosto muito dos versos do renato russo em “tempo perdido”, de que “temos todo o tempo do mundo” e “temos nosso próprio tempo”: sobre o primeiro, a imensidão do infinito, abstração tão necessária quanto qualquer ilusão que alimentemos; e, a respeito do segundo, gosto da ideia de ter meu próprio tempo, de torná-lo meu, apesar de todo o esforço mundano para tirá-lo de mim e preenchê-lo com aquilo que não me interessa. conforme canta o lenine, em “é o que me interessa”: “daqui desse momento / do meu olhar pra fora / o mundo é só miragem / a sombra do futuro / a sobra do passado / assombram a paisagem”. é “a saudade de um tempo que ainda não passou” o tempo todo do mundo que temos pela frente. e que de nós querem usurpar.

sinto que 24 horas para um dia é exagero. revolto-me, inclusive, quando minhas energias se esvaíram e ainda há o que se cumprir até que se encerre um dia e se possa descansar para o próximo. e, igualmente, 12 meses em um ano considero excessivo. até mesmo 30 ou 31 dias em um mês me incomodam. de modo que durmo, durmo muito, o máximo que meu corpo aguenta, e mesmo assim é pouco, em comparação a todo o tempo acordado e envolvido em afazeres. durmo enquanto forma de protesto contra uma vida cujo ritmo me parece a causa de doenças variadas, físicas e emocionais.

afinal, quanto mais saudável seria se: um dia tivesse 20 horas no máximo, sendo 8 destinadas a dormir, 6 a 8 envolvidas com o trabalho, restando outras 4 ou 6 para escolhas pessoais; um ano, 10 meses, e no mínimo 1 de férias para todos; cada mês fosse composto por 28 dias, distribuídos em 4 semanas de 7; e a semana se dividisse em 4 dias de trabalho e 3 de descanso e lazer. seríamos mais saudáveis, física e psicologicamente. mas não. tornamos o mundo nisto que drummond, lá em 1945, chamou de “nosso tempo”, ainda tão atual: “é tempo de partido / tempo de homens partidos”. uma doença coletiva regida pela tentativa humana de aceleração do tempo.

e uma degustação da minha utopia de vida saudável eu vivenciei no início do período de isolamento social provocado pela pandemia covid-19, em meados de março e início de abril, quando me habituei a dormir antes da meia-noite e a acordar depois das 8:00, inclusive descansando meia ou uma hora no início da tarde. eu pensava, à época: precisou instaurar-se uma pandemia para aprendermos a cultivar um estilo de vida mais cuidadoso com o corpo e a mente. tolice a minha. em poucas semanas, o ritmo de vida forçosamente se normalizou, imergindo-nos na loucura das atividades trabalhistas e educacionais que se iniciam quando nem mesmo o cérebro se conectou à realidade, obrigando-nos a uma exaustiva sequência de 10 a 12 horas de produtividade, seja física ou intelectual, necessitando-nos, nesse intervalo, ainda, cuidarmos de aspectos individuais variados – fisiológicos, familiares, corpóreos, alimentícios, pessoais. revoltei-me desde então, mesmo organizando minha rotina de maneira a dormir ao menos 8 horas por noite e a descansar após o almoço algumas dezenas de minutos; quando anoitece e ainda há mais horas a cumprir, mesmo que a lazer, eu emputeço.

ao contrário de mim, o valter hugo mãe, em entrevista ao jornal o globo, em abril, disse aproveitar a quarentena para trabalhar em dois livros distintos, de modo que sentia o tempo correr: “Quase todos os dias peço mais horas. Queria muito que um dia fosse de 30 horas, no mínimo. O tempo é pouco”. eu chorei quando li, de tristeza. sentimento que me envolve quando percebo meu dia ocupado nos três períodos por atividades profissionais ou compromissos inadiáveis – mesmo que estes sejam raros em minha vida. sinto-me desanimado se leciono, em um dia, pela manhã, à tarde e à noite, por exemplo, e revoltado se no meu turno livre me ocupo com obrigações de ofício. invade-me a sensação de impotência, de modo que a revolta sublimatória é meu escoamento: divido-me entre imaginar uma realidade alternativa, ler e escrever ou dormir. são as minhas formas de resistência, meus mecanismos de defesa diante dessa ameaça completamente abstrata e criada pelo próprio ser humano – aliás, é incrível nossa capacidade de alimentar aquilo que nos mata. acredito, também, que minha escolha pela leitura de livros extensos cujas histórias ocorrem em séculos anteriores – nos últimos meses li, por exemplo, três do machado de assis, três do lima barreto e o “anna karienina”, do tolstói – seja, inconscientemente, uma forma de confrontar a pressa com que nos obrigam a ocupar o tempo em um dia.

inclusive para escrever esta croniqueta eu demorei semanas, pois, quando pensava em me sentar para escrevê-la, escolhia dormir ou ler até dormir. e é o que eu desejo a todos nós, mais descanso, menos cansaço. no máximo um esforço para justamente encontrar uma maneira de se defender dessa ameaça diária, confrontando-a a partir de escolhas pessoais saudáveis. um bom e prolongado sono, portanto. nos 280 dias do meu ano utópico.  

 

ítalo puccini

domingo, 28 de abril de 2019

o que é saudade?


     um dia a josi me disse que o sentimento de saudade, pra ela, representa paz, porque, ao sentir saudade de alguém, ela se sente em sintonia com este alguém, como se um vivesse em estado de plenitude dentro do outro, de modo que esse sentimento – a saudade – pra ela nunca é dor ou sofrimento, mas aconchego e reciprocidade. e, assim, diferenciamos saudade de falta, esta responsável por machucar porque associada à perda e ao distanciamento eterno, como se cortassem um pedaço de nosso corpo, como se arrancassem de nós o sentido da existência. 
      e essa confusão de sentires e conceitos se dissemina socialmente muito em virtude da quantidade de músicas que discorrem sobre a saudade enquanto sinônimo daquilo que é falta e carência – segundo a definição do dicionário, inclusive, “saudade é sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, acontecimento ou lugar”, mas eu prefiro a definição da josi. e talvez a letra de música que melhor exemplifique esse conceito social seja “pedaço de mim”, do chico, na qual ele repetidas vezes se refere à pessoa amada assim “oh, pedaço de mim, oh, metade afastada/arrancada/exilada/amputada/adorada de mim”, definindo saudade como “pior tormento, pior que o esquecimento, dói como um barco, dor latejada, uma fisgada, o pior castigo”. 
     há de se cuidar também com a errônea crença de que saudade é exclusividade da língua portuguesa, pois, derivada do latim, existe em outras línguas românicas, envolvendo outros conceitos semânticos: no espanhol, soledad, e em catalão, soletad, ambas com sentido de nostalgia de casa; e na romena saudade tem o mesmo conceito semântico de dor – diz-se durere – mais próximo do nosso significado usual. ou seja, na língua portuguesa se romantizou tanto esse sentimento que se popularizou o apego a ele como se exclusivo: somos possessivos até com as palavras. 
     de modo que lá fui eu novamente mexer com as pessoas mais ou menos próximas a mim, indagando-lhes: o que é saudade? e mais uma vez me senti em êxtase diante das respostas e de tudo o que as envolve, porque não é somente na resposta que presto atenção, mas também na escolha das palavras, no tempo em que elas vêm, na reação de cada um diante das minhas provocações, quando inclusive o silêncio, ou seja, a não-resposta, representa muito. e adorei a analogia que me apresentaram de que saudade é como quando se assiste a um show do artista preferido, e ele não volta para o bis: você espera vivenciar mais daquilo que foi tão maravilhoso, mas, mesmo diante da ausência desse a mais, você se sente preenchido em felicidade e plenitude pelo que recém-viveu.
     ainda, gostei de quem me respondeu com outra pergunta: “o que não é mais saudade?” – fiquei pensando no quanto é horrível querer se livrar de um sentimento do qual não se consegue – e também agradeço a quem demonstrou preocupação comigo: “tá tudo bem, ítalo?”. assim como foram divertidas as três respostas irônicas: “nunca senti pra saber”; “é o que você sente por mim”; e “é meu coração palpitando quando ítalo lembra que eu existo”. eu gosto da ironia enquanto demonstração de carinho.
      carinho às vezes é coincidência: uma pessoa me disse justamente estar escrevendo sobre saudade, e do texto dela eu destaco o dizer de que “saudade é o lado bom da falta”, pois essa ideia se aproxima do conceito proposto pela josi e também apareceu em outras duas respostas: “saudade é bom, a despeito de toda dor que carrega” e “saudade é uma falta que move, uma ausência que faz companhia”. e dessa maneira eu me despertei para outra definição, igualmente distante da ideia de dor associada a esse sentimento, de que saudade é uma aposta e só existe enquanto virtualidade: no encontro ela já deixa de ser e se transforma em prazer ou decepção. 
      e decepção é a acepção mais comum sobre saudade, sempre associada à falta, em especial na literatura, no cinema e na música. responderam-me ser a saudade: “formigamento no peito, um aperto que sufoca e queima um pouco a garganta”; “é um negócio completamente desnecessário”; “falta de algo que fez parte, que se confundiu um dia com aquilo que eu era”; “vontade de ter pra vida toda o que já não se pode mais”; “desejar o que se sabe que não existe mais”; “uma falta que a gente cria”; e “é prego, e o coração, martelo”. definição dolorosa e de igual viés poético essa última, reverberada em outras três: saudade “é o revés de um parto”; “é reflexo do meu eu de mim apartado”; e “é uma pétala a menos de flor”. 
      nessa perspectiva metafórica, canta o lenine que “saudade é um bicho grande / muito maior do que eu penso / quanto mais se expande, mais denso / quão mais denso, mais se expande / saudade é um bicho imenso”, em”bicho saudade”, letra na qual ainda se versa ser a saudade “um lindo bicho / que da fome se orienta” – inclusive, uma pessoa a mim respondeu associando saudade à fome, quem sabe significando serem ambas inerentes a nós humanos. 
      e sentem os animais saudade? também perguntei aos queridos e queridas. e a maioria acredita que sim, principalmente quando há vínculo de convivência com humanos e filhotes; há quem tenha certeza da presença desse sentimento nos demais seres – isto porque sentimento envolve alma, e alma os animais têm – mas também houve quem assegurasse que não, porque estudos indicam que por exemplo os cães, quando veem seus donos saírem, sentem como se estes nunca mais fossem voltar, de tal forma que a alegria no reencontro é um renascimento, não uma saudade. porém, duas pessoas consideraram a saudade nos bichos presente justo no momento do reencontro e não enquanto um sentir a distância. 
      na próxima croniqueta, pois, direcionarei perguntas aos animais, afinal, conforme versa drummond, “o homem não é assim tão importante” – drummond, aliás, morreu doze dias após a morte da filha, diz-se que de saudade. 
      finalizo, portanto, novamente com a promessa de enviar a cada um dos participantes dessa entrevista uma playlist criada por eles mesmos, a partir das músicas que sugeriram a mim, momento no qual solicitei a cada um: envie-me uma ou mais músicas sobre saudade. afinal, conforme diz a pitty, em vinheta no novo disco, “saudade é vontade daquilo que já se sabe que gosta”, constatação à qual eu acrescento esta, de uma das pessoas a quem dirigi a pergunta-tema deste texto: “saudade é o desejo de reviver momentos de prazer e alegria com aqueles que nos fazem bem”.

https://open.spotify.com/playlist/0teWmczLxRt4aJRED199aQ?si=RbqMZMXrSUCcN9B37y_1xg

ítalo puccini

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

um poema de hilda, um de drummond, um de maneca: tornando-me leitor

há poemas de que eu gosto e eu:
1) não sou capaz de explicar esse gostar,
2) não sou capaz de entendê-los.
e ainda’ssim gosto.
como explicar?


por exemplo este da hilst, a hilda:
“Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.”

parece-me que há uma profundidade maravilhosa aí, não alcançada por mim, talvez devido ao fato de eu não conseguir respirar lá tão embaixo. metáfora pobre, eu sei. porém sincera, no sentido de que sinto no poema uma escrita a ser admirada, uma verve (palavra estranha) poética que eu, enquanto leitor, ainda não internalizo, quiçá sinto.
talvez faltam-me leituras para isto, algo elementar, uma vez que nossa caminhada como leitores depende de uma coragem para encarar textos novos, difíceis, estranhamente estranhos para aquele nosso momento.
há dez anos, eu lia Drummond na escola e não compreendia como aquilo era considerado boa literatura, algo que me permite, agora sendo professor, entender a revolta de meus alunos diante dos mesmos textos que outrora eu abominava. e hoje eu leio um poema como “a flor e a náusea” e me deleito com tamanha sensibilidade crítica de um poeta cujo desejo era vomitar, através da palavra – ou de uma flor – o enjoo da época vivida, um tempo de fezes e de surdez:


“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belo, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

eu hoje sinto essa flor a cada vez que leio este poema. e sinto-a sempre de uma maneira diferente, uma vez que sou um leitor diferente a cada leitura feita.
outro exemplo: a metalinguagem do maneca, o manoel de barros, no “matéria de poesia” não me era compreensível nos primeiros anos da faculdade e, de tanto lê-lo, é-me um poema/livros que, de tão internalizado em mim, com frequência envolvo-o em minhas aulas de literatura e de redação, tentando fazer com que um chevrolet gosmento grude nos meus alunos:


“Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolet gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória

As coisas sem importância
são bens de poesia
pois é assim
que um chevrolet gosmento
chega ao poema
e as andorinhas de junho.”

voltando à hilda, li o livro “do desejo” (editora globo) sem sublinhar nenhum verso, sem rabiscar palavra alguma nas laterais das páginas, não compreendendo a maioria dos poemas. e não há desespero em mim, muito menos a triste ideia de tempo perdido. há, sim, este olhar reflexivo que fez brotar esta croniqueta (escrita enquanto a rafa canta, aqui no bar – faz favor, leitor, vai lá e lê a croniqueta anterior).
sendo assim, hilda, eu volto a ti daqui uns anos – no que diz respeito à tua poesia, pois nas crônicas nos entendemos muito bem, entre cascos e carícias (inclusive, esta é uma croniqueta inspirada pelas tuas, ou seja, repleta de versos e poemas) – com tantos livros a mais na minha bagagem leitora. tu me esperarás, eu sei. e o papo será muito bom.

ítalo puccini