sábado, 20 de dezembro de 2025

torcedor raiz



bernardo ganhou, no aniversário de 9 anos, um novo uniforme do grêmio. camisa tricolor, aquele azul preto e branco em tons vibrantes, número 10 às costas, short preto com o símbolo à direita. no dia seguinte, vestiu o uniforme completo e foi à rua brincar e ser mato - tal qual o personagem homônimo de manoel de barros, um andarilho desprendido do mundo material cuja sintonia maior se dá com a natureza. porém antes bernardo fez duas perguntas determinantes para continuar ou não com a vestimenta escolhida: quem é o inimigo do grêmio? quantos mundiais cada um tem? e, ao saber que tanto grêmio quanto inter têm um mundial, bernardo disse: ufa. e manteve a escolha pelo uniforme para aquele momento, dias após um jogo de sul-americana no qual, na própria arena, o grêmio fora eliminado. mas bernardo não soube desse jogo, como não sabe de praticamente nenhum jogo, tanto faz se do grêmio ou do inimigo ou de qualquer outro time. bernardo e o futebol estão se aproximando aos poucos, timidamente, sem cobranças sem promessas sem compromisso. certamente pela memória. 

isto porque o uniforme dado pelo tio e pela tia é o segundo que ele ganha. o anterior já não serve mais, foi um presente do avô materno alguns anos atrás, este avô que é para bernardo seu torcedor favorito. bernardo diz não ter um jogador favorito, ou seja, um ídolo em campo, mas tem, segundo ele, um torcedor favorito: o vovô elemar - gremista devoto de renato gaúcho. falecido há três anos, seu elemar assistia a todos os jogos do grêmio e de quem mais estivesse jogando - incluindo os do tal inimigo, pois, como bernardo começa a aprender, conquistas se medem pela comparação, logo, não basta apenas ganhar, é preciso também que o outro perca, motivo pelo qual bernardo não aceita o empate como um resultado possível, seja num jogo esportivo, seja em brincadeiras infantis. 

hoje bernardo começa a se assumir gremista como forma de manter com o avô a ligação que sempre tiveram. e por enquanto essa conexão é suficiente para bernardo, que não faz questão de assistir a jogos e não se interessa muito em saber dos resultados. inclusive, em uma noite qualquer de um jogo qualquer de uma qualquer modorrenta fase de grupo de libertadores, ao qual eu teimosamente assistia na tv da sala, bernardo me perguntou quanto estava o placar, ao que respondi que terminara um a um, e ele indignado questionou como podia que ninguém tivesse ganhado ou perdido. e naquele momento bernardo escancarava um dos absurdos desse esporte, afinal, se uma disputa se estabelece e ao término dela não há vencedores e perdedores qual o sentido de ela ter acontecido? 

assim, ignorando as regras que enfadonham o futebol, bernardo expõe as amarras desse esporte ao sol e à sombra de eduardo galeano, para quem brincar com a bola na américa latina se baseia no prazer e na alegria de ser como o pássaro que canta sem saber que canta. e a bernardo, que por enquanto não conhece galeano mas já se arvorou em maneca, basta saber que vestir grêmio é vestir o vovô, ressignificando essa raiz gremista. de preferência com no mínimo a mesma quantidade de mundiais que o inimigo.


ítalo puccini


domingo, 5 de janeiro de 2025

a casa do caralho


        não é o que você talvez esteja pensando. 
        isto porque toda frase, quando tirada de contexto, ganha em potência o impacto mas perde em clareza seus possíveis significados.
        por exemplo: se dissermos hoje em dia a alguém “vá pra casa do caralho” provavelmente seremos consideradas pessoas grosseiras e desrespeitosas. quiçá até receberemos outra agressão como resposta. contudo, se estivéssemos em uma embarcação portuguesa em séculos anteriores e nela nos comportássemos mal seríamos enviados para a casa do caralho sem que isso se tornasse uma ofensa e sim uma punição. era, pois, um castigo ter de ir à casa do caralho, visto que lá havia muita instabilidade e consequentemente gerava enjoos nas vítimas. 
        senta que lá vem história. ou lenda.
        a interpretação de um texto e suas possíveis dúvidas ou conclusões, como se sabe, é inteiramente de quem o lê.
        pois bem, estávamos eu e paola em rodeio na virada de ano - a pequena cidade catarinense no médio vale do itajaí fundada em finais do século xix por imigrantes italianos, não aquela festa tipicamente desrespeitosa aos direitos animais. queríamos visitar os amigos cristiano e patrícia e jackson e conhecer a hospedaria “quinta da gávea” e a oficina e museu e editora tipográfica “papel do mato”, tão bem idealizadas e cuidadas pelos três há cerca de uma década. esse denominado “jardim criativo” fica no alto de um morro em rodeio e por lá passamos quatro dias em companhia de animais humanos e mais que humanos e em meio a um riacho cercado de mata - merece destaque aqui a gatinha tecla, a dona da bibliotecla rural, onde também há uma mesa de sinuca na qual tacamos felizardamente todos os dias. e, como temos pensado em lançar futuramente um livro artesanal, composto por poemas e ilustrações, aproveitamos essa estadia para conhecer um pouco mais do processo tipográfico de edição livresca, um trabalho minuciosamente cuidadoso no qual cada letra é escolhida de maneira singular e as páginas dão materialidade às palavras. 
        em meio a esse contexto e ao clima de férias dos nossos dias recentes, quando abrimos espaço mental para divagações, tivemos a dúvida quanto ao significado da escolha nominal “quinta da gávea” - já que “papel do mato” nos pareceu mais fácil de compreender: impressão artesanal de livros em uma tipografia localizada em um quintal-floresta. e cristiano e patrícia então nos explicaram que a palavra quinta é como os portugueses chamam suas propriedades rurais, enquanto gávea é o bairro no qual fica a hospedaria em rodeio - e essa nomeação citadina se deve a uma presença massiva de torcedores flamenguistas entre os moradores do local, fato que comprovamos ao adentrarmos a cidade pela via principal onde em várias residências percebemos bandeiras e flâmulas em vermelho e preto. é como diz um dos cânticos da torcida rubro-negra: onde estiver, estarei, oh meu mengo. 
        mas gávea também tem outro significado, conforme nos falou cristiano: é a parte mais alta de uma embarcação a vela, de onde marinheiros podem avistar horizontes. ainda, segundo o dicionário oxford, gávea é o mastaréu acima do mastro grande, onde são colocados os cestos, ou seja, as armações redondas nas quais ficam os vigias a observarem o mar em todas as direções possíveis. por esse motivo, descobrimos depois que, no rio de janeiro, ao contrário da ousadia dos moradores rodeenses, o nome do bairro gávea se deve justamente a uma semelhança que os marinheiros viam entre a pedra de 850 metros de altura, a nortear as navegações à época, e a parte mais alta dos mastros dos navios de então. o detalhe curioso desse fato é que a pedra da gávea fica no bairro de são conrado, vizinho ao bairro homônimo à rocha, e o motivo disso eu não sei e vou procurar saber talvez somente numa próxima visita à cidade carioca. 
        porque o interesse nesta croniqueta é não perdemos de vista a casa do caralho. 
        como eu e paola estamos pensando em versar sobre a quinta da gávea, quando voltamos de nossa estadia por lá comecei a ler mais sobre a palavra gávea, tentando visualizar melhor um possível entendimento a respeito desse pedaço de madeira tão importante nas embarcações, especialmente de outrora, cuja tecnologia marítima ainda não alcançava os recursos atuais. e assim descobri em alguns textos que gávea tem como sinônimo português a palavra caralho, logo, se a gávea é o cesto da parte mais alta do mastro de uma embarcação a vela esse local também pode ser chamado de caralho, para onde justamente eram enviados marinheiros que não se comportavam durante uma viagem, pois, dada sua altura, aquele lugar provocava bastante incômodo e de lá os castigados desciam mais comportados porque enjoados.
        tal descoberta me deixou tão entusiasmado quanto um navegador se sentia quando de uma gávea ou de um caralho - a escolha, vale lembrar, é sempre de quem lê - avistava novas terras, afinal um novo saber é também um novo lugar. de modo que no dia seguinte, entre amigos e à beira de uma piscina, compartilhei esse conhecimento e recebi do tiago uma provocação típica de quem sabe ser leitor: quando é que vamos poder ler sobre toda essa história? pois a resposta é esta croniqueta, dedicada a todos nós que fazemos da curiosidade um motivo a mais para compartilharmos vivências.
        mesmo que estas não sejam necessariamente verdadeiras - e aqui faço deste parágrafo um apêndice, isto é: podemos viver com ou sem, tanto faz, só é importante cuidarmos para não haver infecção generalizada. o fato adicional se deu quando, rodeado de leituras sobre todos esses nomes, descobri a possibilidade de essa associação gávea-caralho ser na verdade uma falácia lenda ou fake news, a depender do termo que queiramos usar. isto porque há um estudo mostrando etimologicamente a existência da palavra caralho já em documentos clericais e em cantigas trovadorescas dos séculos x e xi, com uma conotação referente àquela popularmente conhecida até hoje, ou seja, mais um possível sinônimo para o órgão sexual masculino. basicamente: a casa do caralho não fica em alto-mar. ou: antes do cesto no alto de um mastro já existia o caralho, cujo significado inicial supostamente faz referência a um pau ou estaca de madeira, mas não exatamente a uma embarcação marítima. inclusive, as expressões “possibilidade”, “possível” e “supostamente” poderiam aqui receber aspas porque não há consenso sobre a etimologia do caralho, motivo pelo qual acredito que possamos fazer dele o que quisermos, até mesmo uma croniqueta.

ítalo puccini