domingo, 31 de março de 2019

des


      assim sem acento é prefixo de oposição, negação ou falta; com acento – dês – é preposição antiga, substituída atualmente por desde, também ação do verbo dar conjugado na segunda pessoa do singular no presente do subjuntivo – que tu dês atenção a quem te ama – e no imperativo negativo: não dês atenção a quem não te quer. e entre essas duas acepções da palavra me interessa mais a primeira, mesmo que as frases de exemplo da segunda sejam muito oportunas.
      meu olhar para a palavra des enquanto falta existe desde que li, há anos, a terceira parte do “conto de facas”, do enzo, cujo título é justamente des, e nos textos ali presentes se entoa a dor de um fim de relacionamento, sendo o primeiro texto dessa parte justamente o motivo do término: “Descaso sm. 1. desatenção 2. falta de importância ou cuidado 3. desconsideração 4. neblina que se perfila nos olhos daquele que perdeu a única pessoa com quem se casaria em vida; espera, breu branco”. e nos demais textos do livro enzo trabalha com palavras como descuido, desejo, desterro, descida, descrença, desaparecer, desperto, descartar, desconhecido e andes. 
      segundo enzo, ainda, des é nome a ser dado a quem abandona a pessoa amada – no texto intitulado “Quatro minutos de olhar”, há a seguinte explicação: “Texto sobre Yashodara, a esposa que foi abandonada por Sidharta Gautama, o Buda. Seu des”. e esse significado desde então mora em mim, mais ou menos latente de acordo com os acontecimentos cotidianos e com a intensidade da memória nas veredas das vivências. de modo que minhas recentes separação matrimonial e demissão profissional me reacenderam essa lembrança.
     pois há poucos dias eu criei uma playlist com o propósito de reunir músicas cuja temática fale sobre o sentimento de falta do eu lírico, oriunda de um abandono amoroso, ou seja, que contenham letras expressivas de mentiras sinceras, migalhas dormidas, raspas, restos e pequenas porções de ilusão – atitudes típicas de uma pessoa apaixonada quando em desespero diante da perda de um amor. não exatamente porque eu vivencie tal caso, e sim devido ao meu interesse por esse recorte poético: não há nada melhor do que ouvir canções sobre dores amorosas quando estas não compõem o seu ser naquele momento. 
      e eu escolhi, também, saber de algumas pessoas próximas palavras cujo início seja com des, com a finalidade de ampliar o repertório de significados possíveis a essas três letras. e a experiência foi sensacional, a começar pela quantidade de palavras propostas por cada um dos convidados a esse exercício de pensar: houve quem me dissesse uma só palavra, foram duas pessoas – uma disse deslexia, enquanto a outra, despacito – escolhas bastante representativas de cada uma. em contrapartida, vieram 88 palavras de uma só pessoa, bastante destemida. e um convidado teve a desfaçatez de não participar: xablau pra você, irmão. 
     as palavras mais repetidas entre os dezessete participantes foram desespero, desdém e desculpas, ditas por sete deles, e dentre essas a de que eu mais gosto é desdém, pela sonoridade – gosto também, pelo som, de desditoso, deslize, desvario, desapego, desfile, desuso, desleal, desumano, deserto, desvio, desvelar, desaguar e desmembrar. inclusive, foi pensando nesses diferentes aspectos de se olhar para uma palavra que eu constatei quantas, por mais que comecem com esse prefixo cujo significado é de oposição à ideia da palavra original, não simbolizam sentido negativos, até mesmo porque são conjunções, preposições, conceitos ou variações verbais: destarte, desde, dessa, destro, desinência, desktop, desporto, design, destaque, desbravar, descer, desenhar e destino. e também há as que sugerem conotações positivas: desmentir, destemido, desinibido, destreza, despir, desejo, desencalhar, desbloquear, descomplicar, desarmar e desabafar.
     eu procurava, desde o início da brincadeira, por quatro palavras: descaso, desapaixonar, desonra e deslembrar. e elas apareceram assim: a primeira, três vezes; a segunda, duas vezes; a terceira, uma única vez; e a quarta, nem uma vez – só a encontrei no grande sertão do guima. enquanto tantas outras, ainda, alegraram-me porque tiradas do esquecimento em que viviam no meu mundo invertido: desordem, desatino, déspota, desdêmona, desamor, descanso, descaminho, desinteirar, desalinho, desalinização, desiluminador e desvelar. 
      por fim, gostei da reação dos participantes – menos do completo silêncio de um deles, atenção devidamente já chamada nesta croniqueta. a maioria não me questionou o porquê da minha intervenção, que foi: diga-me palavras que comecem com des. porém, alguns reagiram, mais ou menos surpresos, mais ou menos desconfiados, mais ou menos indignados, mais ou menos felizes: um me disse “tá faltando google na sua vida”,  demonstrando fina educação; três expuseram cansaço ou preocupação ao perguntarem “ajudei?”, “deu?”, “tá bão?”; um se assustou e questionou “assim do nada?”; outro dissertou raivosa indignação diante da minha recusa em explicar o motivo do meu pedido; e um me deixou muito feliz ao dizer que nunca mais pararia de pensar nessas palavras. 
     e esta croniqueta eu espero que cumpra essa função também, de instigá-los a continuarem à procura de palavras, no modo mais aleatório possível, relembrando-as, ressignificando-as e compartilhando-as. e a recompensa por mim prometida a cada um dos convidados – grato. daqui uma semana você receberá a recompensa – é este texto, em conjunto ao link da playlist, esta na qual há pelo menos uma música sugerida por cada um deles sobre dor amorosa, pra ser ouvida nos momentos bons e ruins, a depender da coragem e do impacto de um des na vida de cada um. 
ítalo puccini

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

são vírgulas

      as pernas, inclusive, têm vida própria, elas não sossegam, mesmo o corpo assim estando, parado, como exemplo, ao sentar-se para um lanche, uma refeição, alguma atividade de estudo ou trabalho, este corpo citado às vezes relaxa, mas elas, as pernas, as irrequietas pernas, balançam ao ritmo de algo que apenas a elas compete saber, parecem dançar ao som de alguma música, por ninguém mais ouvida, somente por elas, levando-as a um abrir e fechar, frenética  ou calmamente, entrecruzadas ou espaçadas, juntas-batendo-joelho-com-joelho, a um lado e ao outro, ritmadas, ou, enquanto uma descansa, a outra sacode para cima e para baixo, para cima e para baixo, descontroladamente, como se em poucos segundos fosse desgrudar-se do corpo e sair quicando, ainda ritmadamente, ainda ao som daquela música que lhes é própria, ou, também, há a perna que balança quando sobrecruzada à outra, típica posição culturalmente imposta às mulheres, porém tão comum aos homens, aos que são capazes de realmente cruzar uma perna sobre a outra e deixá-la a balançar, como se ali coubesse uma criança ou um cachorro ou um gato recém-nascidos, dependurados nesta perna que, da mesma forma, com igual ritmo, sobe e desce, sobe e desce, talvez assim descansando, talvez simbolizando a inquietação daquele a quem elas pertencem, ou são eles que a elas pertencem, não se sabe, mas elas não param, as pernas, enquanto parado está o corpo, há um movimento contínuo, independente, comum a todos os seres humanos, em alguns mais frenético, em outros menos perceptível, porém existente, constante, apesar das mudanças de posições e de ritmos, são gestos entre vírgulas, condutores de uma linearidade rítmica ao corpo no momento de este levantar-se, quase uma intervenção artística, uma espécie de empurrão justamente para este ato de levantar-se, algo inclusive com nome próprio, a síndrome das pernas inquietas, ou síndrome de ekbom, diagnosticada clinicamente, cujos sintomas envolvem alteração de sensibilidade e agitação motora involuntária, palavras bonitas, mas que não alcançam o significado preciso deste ato, ao contrário, podem até mesmo distorcê-lo, através da alegação de uma qualidade de vida comprometida ou da sensação de desconforto, outras expressões consideradas importantes, porém irrisórias, não há dores, não há formigamentos, não é predisposição genética ou ausência de dopamina e ferro em áreas motoras do cérebro que provoca este balançar das pernas, a ciência não alcança o que a arte faz acontecer com elas, as pernas, essa música própria, essas vírgulas, esse gesto espalhafatoso, deve ser realmente bom balançá-las,

ítalo puccini

quarta-feira, 22 de julho de 2015

fios de barba e de memória

            há quem deseje apagar da memória uma lembrança, esta sendo geralmente triste, associada à dor emocional ou física, relacionada a abalos psicológicos, uma vez que lidar com o sofrimento é uma arte para a qual nascemos sem aptidão. entretanto, existem pessoas cuja vontade seria a de eliminar da memórias traços vividos em êxtase de alegria e contentamento, como se fosse possível, então, reviver aquelas energias positivas na mesma – ou talvez até em maior – intensidade, como se fosse a primeira vez.

            “brilho eterno de uma mente sem lembranças” me levou a pensar nisso. e então lancei uma pergunta, no facebook e no twitter: “se você pudesse apagar de sua memória uma lembrança, qual você apagaria?”. uma pergunta capciosa, obviamente, digna de não ser respondida, pois quem é que vai abrir-se nas redes sociais para responder a algo íntimo? mas justo por esse motivo a lancei, a pergunta, envolta em uma tênue linha de esperança de me deparar com algo sincero e corajoso.
            recebi, pois, algumas poucas respostas, a maioria apontando o não-apagar das memórias, sejam boas ou ruins, sob o argumento de, assim, não excluir da vida as experiências vividas, sendo estas constituintes da formação do indivíduo enquanto sujeito. respostas, portanto, fluidas, contornando a pergunta, porém não a respondendo, afinal, conforme argumentado acima, ao respondê-la, escancara-se uma individualidade por si só subjetiva e, nesses momentos, a timidez assume o lugar da autopromoção.

            ainda, no mesmo dia em que terminei de assistir ao filme no qual jim carrey e kate winslet lindamente protagonizam o amor e seu entorno – eu costumo dormir ao assistir a filmes, então, faço isso em etapas – eu finalizei a leitura do “barba ensopada de sangue”, do daniel galera, cujo resultado foi um despertar desta croniqueta, partindo do pressuposto de que a tentativa de apagar da memória a existência da pessoa amada – o ponto central da película – apresenta-se como oposta à busca protagonizada pelo personagem barbudo do romance livresco, focado no objetivo de acrescentar vivências à sua memória: no caso, descobrir mais sobre o avô, a ele desconhecido a não ser pelas palavras proferidas pelo próprio pai, um dia antes de suicidar-se.
            é esse o mote da narrativa tensa desenvolvida pelo escritor gaúcho, na qual me senti mergulhado, ora identificando-me com a reclusão do personagem principal, ora sendo tomado pela curiosidade oriunda do suspense em torno justamente desse desejo do personagem em encontrar o avô e, por consequência, acrescentar vivências, emoções e informações à sua memória. de fato, o professor de natação – o protagonista do romance – quer experimentar algo como sendo a primeira vez. nem mesmo a sua face ser semelhante à do avô o satisfaz, ele pressente a necessidade – ainda que somente intuitiva, sem certeza concreta de algo – de ver o pai de seu pai para então compreender-se. e, independente dos acontecimentos futuros – não vou lançar spoilers – o personagem não deseja apagar da memória suas vivências, e nesse contexto se insere sua segurança em não exercer o perdão, por exemplo.  
            essa contradição, a meu ver presente nas duas histórias – o desejo em apagar algo da memória e o instinto em viver descobertas familiares – apontou-me algum caminho para pensar o ato de reler um livro e de assistir novamente a um filme, peça teatral ou espetáculo musical, destacando a quantidade de vezes nas quais nossa intenção é a de voltar a uma história já conhecida, seja para lembrar de detalhes narrados ou até mesmo com o objetivo de reviver aqueles sentimentos vividos enquanto nos deparávamos (pela primeira vez) com tal referência cultural. como se fosse possível vivenciar exatamente tais sentires.
digo isso porque tenho comigo a crença de que novamente deparar-se com uma obra de arte se configura como uma nova primeira vez, afinal, constituímo-nos diariamente enquanto sujeitos, ou seja, somos formados por nosso entorno, concomitantemente modelando-o – ideia filosófica do materialismo dialético concebido por nosso amigo marx – e, assim, a cada nova interpretação construída junto a algum elemento artístico, é um novo eu a ler ou assistir àquele elemento. portanto, não existe em mim o desejo de, por exemplo, apagar da memória romances já lidos ou assistidos, porque o ato de reler ou rever é, por si só, inovador. 
a primeira vez é sempre.
       finalizando momentaneamente esta conversa: recordar vem do latim “re-cordis”, ou seja, tornar a passar pelo coração – frase presente no “livro dos abraços”, do eduardo galeano – o que ratifica o argumento central desta croniqueta. sendo assim, logo, logo eu voltarei ao brilho eterno e ao barba ensopada, do mesmo modo como há pouco tempo entrei novamente na trama de “os meninos da rua paulo” e de “apenas uma vez”, ressignificando-os, pela primeira vez.

ítalo puccini 

sábado, 28 de março de 2015

entre poemas e contos, da bahia a florianópolis


       isso porque gregório de matos é baiano e franklin cascaes é manezinho da ilha. aquele, nascido e falecido no século xvii, doutor em direito pela universidade de coimbra, tornou-se o escritor mais representativo do barroco brasileiro, no que diz respeito ao texto literário. este, morador da ilha de nossa senhora do desterro, três séculos à frente de gregório, escritor, professor e escultor e desenhista, aprofundou-se no estudo sobre os costumes ilhéus, sendo considerado o artista mais completo da capital catarinense.
            um livro de poemas de gregório de matos – organizado por josé miguel wisnik – está na lista de livros obrigatórios da universidade federal do paraná – ufpr – e um livro de contos de franklin cascaes se encontra, como não poderia deixar de ser, na lista da universidade federal de santa catarina – ufsc. e eu, cumprindo com minhas funções docentes, tenho trabalhado em sala de aula tais obras, aprofundando o estudo a respeito dos autores, das suas características textuais e dos contextos nos quais eles produziram.
assim, numa bela tarde de quarta-feira, entre livros, provas e redações, eu pensei na possibilidade de escrever uma croniqueta – não haverá análise literária acadêmica aqui, é bom que se deixe claro – relacionando estes dois escritores, não somente devido aos textos de ambos, relação esta que ocorre através de elementos diferentes entre si, mas ao fato de que há, nessas literaturas, um importante aspecto: o reconhecimento cultural de dois estados brasileiros, distantes territorialmente, mas quem sabe próximos em afinidades culturais.
cada um à sua maneira, gregório e cascaes se valeram da arte literária – e cascaes de outras também, conforme já dito – para apresentarem aos leitores um pouco do que se vivia em salvador e em florianópolis nas respectivas épocas dos dois. desse modo, à medida que lemos os poemas satíricos e religiosos do poeta baiano, por exemplo, apropriamo-nos das críticas dirigidas pelo boca do inferno – o seu singelo apelido – ao governo do estado, à sociedade e à igreja naquele século, da mesma forma que se torna possível a nós conhecermos com riqueza de detalhes o linguajar do morador do interior da ilha de santa catarina, seus costumes, suas crenças e superstições em figuras míticas, tais quais lobisomens, bruxas e até o diabo, representado pela figura do anjo lúcifer.


sobre gregório, eu converso com meus alunos salientando a relevância cultural do seu texto, afinal, vivemos hoje quatro séculos à frente do momento retratado por ele, e ainda assim sua veia satírica se mantém atual, significando a ausência de avanços comportamentais no que diz respeito a nós, seres humanos. basta, para isso, a leitura de um poema tal qual este a seguir, no qual está exposta nossa atitude curiosa e egoísta:
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.


já cascaes faz uso constante de uma linguagem cuja preocupação reside no registro da língua falada pelos moradores de florianópolis quando a cidade ainda era denominada nossa senhora do desterro, uma língua, portanto, marcada por peculiaridades fonéticas, morfossintáticas, semânticas e lexicais:
“– Primo Nicolau! Vossa mecê acardita memo de vredade naquelas istória que o nosso povo lá das ihias dos Açôri (i) contavo prá nóis como vredaderas?
Ah!... Sim, acardito de vredade, sim, minha prima! E inté agora me veio uma delas, no bestunto da minha cabeça e que eu acho ela memo munto inzata. Como tu bem sabes e vancês todos que tão aqui me osvindo, aquelas ihia dos Açôri, de ondi os nosso avó, foram sempre munto infestada por muhié bruxa que roubam embarcação prá móde fazê viagem inté a Índia em quatro horas; que dão nóis nos rabo e crinas dos cavalo; chupo sangue de criancinha; intico com as pessoa grande e pratico mil malas-arte.”
no entanto, também há um viés crítico nos contos do escritor catarinense, como por exemplo através da negação ao uso do nome florianópolis, uma vez que o autor era contrário à politicagem inserida no projeto de modernização e urbanização da querida ilha de nossa senhora da conceição, vocativo utilizado pelo narrador tantas vezes ao longo do livro.
ainda, são múltiplos os caminhos a serem percorridos a partir da leitura dos textos desses dois escritores, conforme eu converso com meus alunos. gregório, por exemplo, fez uso reiterado de figuras de linguagem e de inversões sintáticas nos seus poemas, transitando pelo gênero lírico ao descrever a mulher amada e uma vida amena ao lado dela – inclusive, retomando o carpe diem, essência da estética clássica e neoclássica – enquanto cascaes explorou a riqueza sonora da linguagem açoriana, assim como, o imaginário popular na constituição cultural de um povo. com isso, da bahia a florianópolis, entre poemas e contos, é possível a nós conhecermos um pouco mais de nossa cultura brasileira.

ítalo puccini 

sexta-feira, 20 de março de 2015

cãimbra

uma crônica em forma de poema eu escrevi pros meus amigos do
grupo “udesc ou itapema?” que eu criei essa semana no whatsap
depois que eu comprei um iphone rosa
grupo composto por três pessoas um grupo aliás fonte de inspiração
por exemplo para esta espécie de crônica em forma de poema
que eu disse a eles que escreveria depois de lhes fazer a seguinte pergunta
vcs já sentiram cãimbra na uretra
assim mesmo com til e m e palavra abreviada
porque eu me recuso a escrever formal ou corretamente em chats
na verdade eu me liberto nesses espaços de interação virtual
eu que sempre fui fechado à ideia de modernidade tecnológica
agora percebo o quanto minha produção escrita advém de tais veículos
mas também muito disso se deve à intimidade que tenho
com algumas pessoas com as quais dialogo por ali
inclusive acho que vou falar disso na análise
é uma contradição interessante
mistura repulsa com criação poética
eu tou há meses querendo escrever um poema e nada consigo
agora com cinco dias de whatsap este poema mesmo que quase narrativo
assim me brota
uma aberração poética na verdade fonte de críticas por parte dos críticos literários
online
é um pessoal que deve sentir cãimbra na uretra ao mijar
para o qual eu não dou a mínima afinal se eu fosse escrever pensando em quem vai ler
eu jamais escreveria algo eu iria sei lá lecionar literatura
então que a minha escrita não se preocupa com o leitor
ao contrário de brás cubas que se dirigia aos seus de maneira agressiva
eu faço pouco caso eu sou displicente
eu escrevo poemas enquanto assisto a jogos de futebol
eu escrevo poemas com versos clichês
enquanto vejo o meu ídolo messi fazer poesia com a bola nos pés
mas esta metalinguagem da qual me utilizo é apenas recurso estilístico para desconversar
para tergiversar
para irritar
para não pensar na cãimbra que sinto na uretra
vcs também a sentem
ponto de interrogação

ítalo puccini

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

um macuco

“é um tinamiforme da família tinamidae. nome de origem tupi-guarani: mogoico-erê. é o maior representante dos tinamídeos na mata atlântica. é espécie cinegética (caçada). seu nome, em latim, é solitarius, ou seja, solitário. atinge até 52 cm e entre 1,5 a 2,0 kg de peso médio. habita a mata atlântica primária, sempre próximo a riachos. sua vocalização principal consiste em um único pio, meio agudo e bem espaçado, sendo o pio do macho mais curto que o da fêmea. as fêmeas são dominantes e territoriais”.
isto segundo a “wikiaves”.
porque um macuco também pode ser um título em um torneio de sinuca familiar. assim: nós nos reuníamos semanalmente para jogarmos sinuca – eu, meu pai, meu irmão fran e o fox (que minha mãe diz ser o filho ruivo que ela nunca teve – minha barba não preenche esta lacuna na vida dela). geralmente aos finais de semana, passávamos cerca de duas a três horas em torno de uma mesa de bilhar, daquelas de inserir a ficha e ouvir o estalo da bola ao ser encaçapada, lá no extinto bar do paludo, em jaraguá do sul, revezando as duplas e, consequentemente, os confrontos. da seguinte forma: todos jogavam com todos e contra todos. eu e o pai versus o fox e o fran. eu e o fox versus o pai e o fran. eu e o fran versus o pai e o fox. assim por cinco vezes, mais ou menos. a cada vitória de uma dupla, marcávamos um ponto para os vencedores. logo, ao término de toda a bagunça giratória, havia um campeão e um lanterna.
pois bem, um dia o pai levou uma lanterna para o bar. e o fox se revoltou com aquilo. uma lanterna pequena, daquelas de 1,99, um singelo símbolo da brincadeira. dessa maneira, o último colocado naquele dia levava a lanterna pra casa e ficava com ela durante toda a semana, até o próximo sábado ou domingo, e, caso o mesmo jogador terminasse três semanas seguidas em último, ficava em definitivo com o objeto simbólico e tinha a obrigatoriedade de trazer uma nova lanterna para o próximo jogo.
as novas lanternas compradas eram mais modernas ao longo dos meses. foi bonito de ver.
e o campeão de cada jogatina? aquele que mais vencesse no rodízio de duplas sagrava-se campeão – quando dois alcançavam o mesmo número de vitórias, jogava-se uma partida individual, uma só, para definir o vencedor da semana. e daí, não é mesmo? bom, e daí que um dia o fox venceu pela quinta vez a brincadeira e disse: agora eu tenho um macuco. e a inveja disseminou-se pelo grupo. porque o ruivo simpático, a cada final de semana, repetia: eu tenho um macuco, seguido por uma risada sarcástica: ha ha. e seria difícil alcançar o tal macuco, afinal, vencer cinco campeonatos assim disputados não era algo que se alcançasse em um mês. eu, por exemplo, ao longo de pouco mais de um ano de diversão, nunca consegui. mas o meu irmão já, ele conquistou a palavra-símbolo-da-destreza-sinucal, e meu pai até hoje não entendeu o tal do macuco, logo, não faz questão dele.
    justamente por isso, por esta perda que carrego comigo, propus retomarmos a brincadeira, nem que eu leve uma década para alcançá-lo, o macuco, este vocábulo cujo significado, para nós, não apresenta relação com a significação formal da palavra – e por isso eu iniciei esta croniqueta com aquela definição. um macuco, para nós, é muito mais do que um troféu, do que um valor em dinheiro, do que uma foto de campeão ou um pássaro. um macuco é uma frase: eu tenho um macuco. uma frase que especifica o lugar ocupado por cada um de nós quatro ao redor daquela mesa de sinuca: o fox foi quem primeiro conquistou um macuco. o fran em seguida. eu e o pai, portanto, somos os reservas. mesmo que eu nunca tenha levado uma lanterna pra casa, mesmo que o fran e o fox tenham acumulado lanternas em casa. eles têm um macuco. ponto. e eu tenho uma inveja.

ítalo puccini 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

a elegância de clara

            


           clara é o nome da nossa vira-lata, que há vinte dias está conosco, presente recebido da mãe da amanda, da própria amanda e do marco vasques – isto porque sobram cães e gatos na casa da dona maria, e, num domingo qualquer, almoçando por lá uma deliciosa carne preparada pelo chef literário, batemos o olho nessa princesa de apenas quatro meses, de pelagem preta, com as patas, o peito e os traços da cabeça em tom amarronzado e uma barriguinha saliente, rosada, um charme a mais nesse corpinho miúdo de patas grandes, que dia a dia vem espichando, parecendo uma mistura de rottweiler com basset, sendo na verdade uma vira-lata puríssima, de pai e mãe vira-latas, ambos de tamanho médio.
            uma das orelhas dela insiste em ficar dobrada para trás.
inicialmente, demos a ela um nome composto: clara nunes. porém, a referência é muito forte, cuja história de vida contém marcas que, a nosso ver, não caberiam a esse tisco de cão. assim, abreviamos. chama-se, agora, clara. nos momentos de puro-amor ela é clarinha, cuti-cuti, ai mo deuzo, amor da minha vida; entretanto, quando apronta, o tom de voz aumenta, e a chamada é: clara, não!alternância esta que ocorre com bastante frequência ao longo do dia, por exemplo: quando ela desembesta a correr pra lá e pra cá, pulando, latindo, devido às provocações que fazemos, ou quando ela dorme, tão linda, aninhada aos nossos pés, ela é a clarinha; diferentemente dos momentos em que cava buracos no gramado, tenta morder chinelos, tapetes ou almofadas ou faz manha para dormir, deixando de ser a 'inha' e tornando-se uma simples cachorra que merece ficar de castigo.
porque o amor e o ódio se imanam nas fogueiras das paixões, já cantava a elis.
e agora durante as férias um pouco da rotina – sobre dormir e acordar – tem sido assim: clara dorme no nosso quarto, amarrada a guia à coleira e ao cabideiro, deitada sobre um tapete, aninhada a um ursinho igualzinho a ela, de cor preta com manchas em marrom. clara dorme presa à guia devido a uma simples razão: não ficar durante a madrugada andando pelo apê, fazendo tec-tec-tec-tec com as compridas unhas, barulho este realçado pelo piso amadeirado cá de casa. e ela dorme que é uma beleza, até umas 6h ou 7h da manhã, quando uns baixinhos sons de choro podem ser ouvidos: é o momento de levantar, tirá-la da guia e ir com ela para a parte externa, o gramado. enquanto ela come a ração e bebe a água e depois faz suas necessidades, eu preparo umas torradas com geleia e me sento também lá fora, a ler e a comer, lutando bravamente contra os mosquitos ainda presentes ao raiar do dia. minutos depois, é hora de voltarmos a dormir. ela entra sozinha em casa e já se dirige ao quarto, para onde também vou. assim temos mais umas horas de sono, até ela começar a algazarra do dia.
bola de meia, bola de gude, o solitário não quer solidão.
e a clarinha muito menos. onde nós estamos, lá está ela – agora que escrevo, por exemplo, está deitada sobre meu pé, dormindo profundamente; enquanto preparamos o café, o almoço ou a janta: deitada no tapete ao pé da pia; enquanto assistimos às séries e aos filmes na televisão da sala: deitada nos nossos pés, no chão, no pufe ou no sofá, entre nós; quando nos levantamos para ir a outro cômodo: tec-tec-tec-tec, lá vem ela atrás. paramos de andar, ela para e senta. voltamos aonde estávamos, ela volta também. vou lá fora jogar o lixo, ela chora dentro de casa. houve uma manhã, inclusive, em que eu, caindo de sono, deixei-a na parte externa do apê, fechei a porta e voltei a dormir. levantei-me perto das dez, fui procurá-la e cadê? aí vem o desespero: tum-tum-tum! corri pelo prédio, a procurá-la. em poucos minutos a encontramos, quando a vizinha do apartamento ao lado abriu a porta e a trouxe. disse que a encontrou presa na grade que divide nossos jardins, tentando passar para o lado de lá. ou seja, quando se viu sozinha, bateu o desespero do abandono, fugiu para a família ao lado – não sem antes muito chorar e latir.
agora, ela vai lá fora, senta e olha.
e o título desta croniqueta-quase-ensaio é oriundo do livro que tou lendo nessas duas semanas de rotinas-com-a-clara: a elegância do ouriço, de muriel barbery, cuja história envolve duas narradoras: paloma, adolescente de 12 anos que promete suicidar-se no dia do seu próximo aniversário, e renée, zeladora do prédio onde paloma e outras tantas personagens vivem, no centro de paris. o objetivo de vida de ambas é o mesmo: apagar os traços de suas existências. os capítulos se alternam entre essas duas vozes narrativas que tão bem escrevem e conversam com o leitor, propondo uma série de reflexões existenciais, a partir da realidade frívola que as cerca, isto através de ironias e descrições divertidas sobre o comportamento de cada personagem, coincidências que envolvem variadas manifestações artísticas e cenas cotidianas junto às quais o leitor pode muitas vezes se reconhecer. é, a meu ver, um livro que pede uma leitura mais lenta, espaçada, um pouco por dia. senti isso desde que comecei a lê-lo e dessa forma tenho feito, aproveitando-me do despertar matinal de clara para isso, para ler algumas páginas e então parar, voltar a dormir, quem sabe durante o dia ler mais. parece-me que há livros para serem lidos assim, a partir do ato de levantar a cabeça após a leitura, proposto por barthes, o mesmo movimento que faz clara ao ir para a área externa do apartamento: ela anda um pouco, para diante da comida, olha, sente o cheiro, senta e então começa a comer; a seguir, levanta-se, anda outro pouco e senta-se no limiar do piso com o gramado, olha, sente o cheiro, para só depois andar pelo próprio gramado.
eis a elegância de clara.

ítalo puccini.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

um poema de hilda, um de drummond, um de maneca: tornando-me leitor

há poemas de que eu gosto e eu:
1) não sou capaz de explicar esse gostar,
2) não sou capaz de entendê-los.
e ainda’ssim gosto.
como explicar?


por exemplo este da hilst, a hilda:
“Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.”

parece-me que há uma profundidade maravilhosa aí, não alcançada por mim, talvez devido ao fato de eu não conseguir respirar lá tão embaixo. metáfora pobre, eu sei. porém sincera, no sentido de que sinto no poema uma escrita a ser admirada, uma verve (palavra estranha) poética que eu, enquanto leitor, ainda não internalizo, quiçá sinto.
talvez faltam-me leituras para isto, algo elementar, uma vez que nossa caminhada como leitores depende de uma coragem para encarar textos novos, difíceis, estranhamente estranhos para aquele nosso momento.
há dez anos, eu lia Drummond na escola e não compreendia como aquilo era considerado boa literatura, algo que me permite, agora sendo professor, entender a revolta de meus alunos diante dos mesmos textos que outrora eu abominava. e hoje eu leio um poema como “a flor e a náusea” e me deleito com tamanha sensibilidade crítica de um poeta cujo desejo era vomitar, através da palavra – ou de uma flor – o enjoo da época vivida, um tempo de fezes e de surdez:


“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belo, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

eu hoje sinto essa flor a cada vez que leio este poema. e sinto-a sempre de uma maneira diferente, uma vez que sou um leitor diferente a cada leitura feita.
outro exemplo: a metalinguagem do maneca, o manoel de barros, no “matéria de poesia” não me era compreensível nos primeiros anos da faculdade e, de tanto lê-lo, é-me um poema/livros que, de tão internalizado em mim, com frequência envolvo-o em minhas aulas de literatura e de redação, tentando fazer com que um chevrolet gosmento grude nos meus alunos:


“Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolet gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória

As coisas sem importância
são bens de poesia
pois é assim
que um chevrolet gosmento
chega ao poema
e as andorinhas de junho.”

voltando à hilda, li o livro “do desejo” (editora globo) sem sublinhar nenhum verso, sem rabiscar palavra alguma nas laterais das páginas, não compreendendo a maioria dos poemas. e não há desespero em mim, muito menos a triste ideia de tempo perdido. há, sim, este olhar reflexivo que fez brotar esta croniqueta (escrita enquanto a rafa canta, aqui no bar – faz favor, leitor, vai lá e lê a croniqueta anterior).
sendo assim, hilda, eu volto a ti daqui uns anos – no que diz respeito à tua poesia, pois nas crônicas nos entendemos muito bem, entre cascos e carícias (inclusive, esta é uma croniqueta inspirada pelas tuas, ou seja, repleta de versos e poemas) – com tantos livros a mais na minha bagagem leitora. tu me esperarás, eu sei. e o papo será muito bom.

ítalo puccini