segunda-feira, 22 de junho de 2020

o homem e a terra: a literatura enquanto testemunho



   ignazio silone, escritor italiano oriundo de “pescina dei marsi”, na província de l’aquila (itália meridional), na região do abruzzo, escreveu “fontamara”, aquele que se tornou o principal best-seller italiano do século xx, romance no qual o autor retrata a miséria da vida campesina, o amor à terra e o orgulho de quem cuida desta terra – os cafonis, um povo devoto a deus, muito trabalhador, ingênuo, humilde, cujo objetivo diário era lutar pela própria sobrevivência. e uma das marcas da vida do próprio autor envolve justamente a realidade do trabalho braçal – por coincidência, silone nasceu no dia 1º de maio de 1900 – dedicando-se à defesa de seus irmãos de localidade, que sofriam envoltos à miséria e à opressão, agravadas com a ascensão do fascismo, na itália, na década de 1930. 
o que silone apresenta em “fontamara”, pois, é um testemunho, ou seja, um fragmento sobre as questões existenciais vividas por ele mesmo e pelo seu povo, ressignificadas em um novo viés, este de natureza literária, desdobrando-se no âmbito da estética e não restringindo seu corpus à produção dos sobreviventes. assim, configura-se a obra um retrato de uma sociedade presente na itália no início do século xx, quando os habitantes do campo lutavam pela conquista de direitos e das próprias terras onde eram agricultores e trabalhadores. e “fontamara” é isto: um romance – formado por dez capítulos mais um prólogo – cuja história se divide nas vozes de três narradores e aborda a vida dos cafonis, camponeses socialmente oprimidos que descobrem a ação de um empresário, recém-chegado à localidade e já nomeado novo dirigente político do local, responsável por desviar o curso do rio do qual provinha o fornecimento de água para o cultivo das plantações. 
          nesse contexto, a ação dos cafonis é, em essência, na narrativa, quase uma falta de ação: sentem-se desnorteados, sem sabedoria sobre como devem agir diante da onipresença intelectual e física daqueles que exercem o que bourdieu, ao final do século xx, denominou violência simbólica: exercida por um corpo social, sem agressão corpórea, responsável por causar danos morais e psicológicos nas vítimas – com a diferença de que fisicamente sofrem os camponeses na obra. há, dessa forma, em “fontamara”, em um aspecto, a perspectiva social de personagens oprimidos, e, em outro, a daqueles com acesso à cultura e aos meios necessários para se promover alguma mudança coletiva – preferencialmente restritiva à elite. além disso, nesse ínterim, estabelece-se um impasse de comunicação entre esses dois grupos, tão distintos e compartilhando uma mesma realidade: os cafonis, apegados a provérbios e dialetos e lendas próprias – definidores de verdades perpétuas – e os homens da cidade, representantes dos tempos modernos e totalitários e violentos em ascensão à época. 
          nessa perspectiva, o tema central de “fontamara”se refere à familiaridade dos personagens com a terra, temática recorrente nas obras de ignazio silone, refletindo uma herança familiar, visto que seu pai foi um pequeno produtor agrícola, e desse modo o autor desenvolveu essa identificação. também, é característica dos textos de silone a presença de terrenos áridos, de regiões íngremes, simbolizando a dureza da vida enquanto espelho do lugar, este bastante áspero, que se torna o objeto de desejo principal dos personagens da narrativa, dispostos a qualquer confronto pela defesa de uma propriedade, alimentando ainda mais a luta por aquilo sobre o qual eles detêm direito. é, pois, a narrativa de silone que mais apresenta seu estado de homem enraizado a uma terra, a uma causa, a um almejo contínuo pelos direitos sociais. e há, ainda, uma temática de solidão e de nostalgia na descrição das ações vividas pelos personagens camponeses, representando o temor – deles e do autor – de desvincular-se da própria origem.
          inclusive, silone foi, além de escritor, militante político, sendo “fontamara” uma obra escrita em davos, na suíça, em 1933, quando ele se exilou, fugindo do fascismo dominante na itália à época. dessa maneira, construída pela e a partir da memória de ignazio, essa narrativa-testemunho contempla traços autobiográficos, responsáveis nesse caso pela clareza sobre as relações entre a luta dos personagens e o conflito de vivência e de objetivos do próprio autor, um cafoni a desafiar, até onde conseguiu, a imposição fascista. 
          postura artística, a do escritor italiano, que dialoga com a afirmação de francisco de assis barbosa a respeito de lima barreto: aquele que “passou a ver o homem em função da sociedade em que vive e não apenas dentro de si mesmo”, cujos romances se apresentam mais como um relato pessoal do que necessariamente um trabalho literário apurado em aspectos do gênero. e essa característica de silone e teorizada em lima, de retratar, a partir da literatura, um povo e o local de origem deste, encontra-se igualmente em graciliano ramos, escritor alagoano e resistente político, que não escapou da prisão quando vargas a decretou, também na década de 1930, sem provas e sem processo, sob a alegação de o escritor envolver-se com o comunismo. 


         contudo, não se limita a isto a semelhança entre os autores, uma vez que a história de vida de graciliano da mesma forma abraça a realidade sertaneja, rural, humilde e oprimida. de modo que não há como ler “fontamara” e não evocar à memória “vidas secas”, escrito por graciliano em 1938, um exemplo do testemunho como literalização e fragmentação – ideia de seligmann-silva, em ensaios sobre memória, arte e literatura. um romance composto em fragmentos, contendo 13 capítulos independentes, cuja sequência consta definida porém permite maleabilidade ao leitor, e a narrativa reflete a secura do ambiente, uma localidade conhecida pelo escritor, de pobreza e terra seca, onde uma família – formada por um pai, uma mãe, dois filhos e mais um cachorro e um papagaio – luta para sobreviver, enfrentando as diversidades lhes impostas pela ingenuidade e dificuldade de trabalho e de subsistência. ou seja, há, na obra de graciliano, igualmente a iminência de perda da terra que serve de moradia e de sustento. 
         nesse sentido, são dois os mundos apresentados ao leitor em “vidas secas”: um envolve a família do personagem fabiano: a esposa sinhá vitória, os dois filhos – filho mais velho e filho mais novo – a cachorra baleia e o papagaio; e o outro engloba a sociedade na qual tentam viver fabiano e família, aquela representada principalmente pela figura de duas pessoas – ou duas nomenclaturas sociais: o patrão (do exploratório e mal pago emprego de fabiano) e a polícia (no enredo do romance, presente na figura do soldado amarelo, responsável por prender fabiano em determinado momento da trama).
assim, o que se apresenta ao leitor entre esses dois grupos não é um sistema de trocas, mas sim um mecanismo de opressão e de bloqueio, similar ao existente em “fontamara”. todavia, se na obra de silone se encontram personagens que lutam ao menos um pouco por alguma forma de mudança no tratamento recebido e na condição em que vivem, no romance de graciliano se evidencia fabiano, indivíduo inofensivo, um pobre diabo, passivo, incapaz de mudar o rumo dos acontecimentos e que, quando tenta provocar alguma mudança, age de maneira intempestiva, sem pensar nas próprias atitudes e nas consequências destas.
há também, em “vidas secas”, uma simbiose entre humanos e animais, num processo de humanização. ou de animalização: fabiano é ou pode ser baleia, o cachorro que acompanha a família, o animal que vive a caçar preás, enquanto fabiano caça trabalho; fabiano é um homem, mas é ou pode ser um bicho, enquanto baleia é um bicho, mas é ou pode ser quem mais apresenta um equilíbrio humano dentre todos os integrantes da família; fabiano e baleia não falam, mas sim grunhem, rosnam, entendem-se e se fazem entender por meio dessa linguagem própria, ausente de palavra. 
“vidas secas”, ainda, é obra de quadros justapostos: o cenário é de paisagem seca, onde há urubus procurando mortos, e humanos, comida. há uma zoomorfização e uma antropomorfização das personagens, figurando-se as pessoas enquanto coisas, personagens diluídos no ambiente. e a linguagem é um problema, não uma solução, porque se configura uma impotência existencial e verbal diante da realidade, sendo os pensamentos dos personagens fragmentados, a partir dos quais o silêncio é o elemento preponderante. na natureza e na família. 
dessa maneira, na narrativa de “vidas secas”, graciliano ramos se utiliza da linguagem para propor uma reflexão sobre a miséria da não-linguagem, característica a partir da qual as personagens se limitam a sobreviver, um dia de cada vez, num processo de morte lenta e irreversível. de modo dissonante ao vivenciado pelos personagens de “fontamara”, em que ignazio silone apresenta a resistência pela vida, um dia de cada vez, num processo de distanciamento da morte, que, se acontecer, será violenta. mas também esvaziada de linguagem. 
duas obras, portanto, representativas da literatura enquanto testemunho e do potencial da linguagem para refletir o quanto justamente a ausência dela impacta na (sobre)vivência do ser humano. de modo que o mais marcante nos romances de silone e graciliano é o cuidado dos autores em explorar a ingenuidade do camponês e sertanejo, em apresentá-los ao leitor compostos de incompletude, fragilidade e mesmo assim desejo por uma vida melhor. e as descrições dos autores nessas duas narrativas conduzem o leitor por uma linha do tempo memorialista e atual, cuja força reside na resistência pelo corpo – dos cafonis, dos fabianos e famílias – ou pela palavra – dos ignazios e dos gracilianos. ambas representativas daquilo em que acreditava e produzia também lima barreto: a arte enquanto fenômeno de representação e, quiçá, transformação social.
 
ítalo puccini

sexta-feira, 8 de maio de 2020

a sobrevivência enquanto instinto


– Você já desejou ter morrido?
– Não. É bobagem querer luxo em tempos como estes.

     não existe força para chorar, apenas para ir adiante, mesmo que ir não garanta chegar a algum lugar muito diferente daquele em que já se está. assim podemos pensar “a estrada”, do norte-americano cormac mccarthy, de quem já li também de “onde os velhos não têm vez” e “meridiano de sangue”, publicados no brasil, respectivamente, em 2007, 2006 e 2009, cujas temáticas se assemelham: personagens no limiar da vida, em uma realidade passada, presente ou futura similar, de abandono e desesperança.
     a epígrafe deste texto é um dos diálogos estabelecidos entre pai e filho na infinita estrada por onde caminham. são os dois os personagens a partir dos quais a narrativa desse livro se estabelece – “cada um o mundo inteiro do outro” – e, no caso do diálogo acima, é a pergunta do filho para o pai. e há muitas perguntas assim com um quê de ingenuidade. afinal, o garoto é apenas uma criança de mais ou menos oito ou nove anos, que se vê caminhando para o sul e litoral dos estados unidos com seu pai, em um cenário de destruição total, em que não restou nada do mundo como o conhecemos. são pouquíssimas as pessoas que sobreviveram a esse fim do mundo tão recorrente nas produções de cormac. 
     essa obra de mccarthy, inclusive, foi filmada para o cinema em 2009, em produção homônima, assim como “onde os velhos não têm vez” – esta em 2007, pelos irmãos coen, com uma mudança no nome: fracos no lugar de velhos – ambas vencedoras de prêmios renomados no meio cinematográfico. “onde os fracos não têm vez”, por exemplo, venceu o oscar 2008 de melhor filme, além dos de melhor ator coadjuvante, melhor roteiro adaptado e melhor diretor; enquanto “a estrada” ganhou melhor filme no bafta 2010 e o leão de ouro no festival de veneza 2009. tanto nessas duas películas quanto nas obras literárias das quais se originaram, é possível sentir uma vontade de ajudar os personagens nos conflitos internos e externos que vivenciam, em virtude da capacidade narrativa de imersão psicológica em meio à violência mundana. 
     sobre “a estrada”, o sentimentalismo, se existe, é do leitor. pois a escrita oferece a concretude dos fatos e no máximo as dúvidas de uma criança que quer entender um pouco mais sobre o que vive. é uma história de persistência para a sobrevivência. uma persistência por algo que não se sabe aonde chegará, mas simplesmente ficar onde se está é um atestado de óbito. desse modo, o pai conduz o filho – ambos personagens sem nome – numa infinita caminhada contra a fome, o frio e os perigos de se depararem com as “pessoas do mal”. é assim que o pai apresenta ao filho aqueles de quem vez ou outra eles fogem ou se escondem, que, caso os encontrem, não só os matarão, como os tornarão alimento. e essa ausência nominal se entende uma vez situada uma realidade pós-apocalíptica, na qual viver é uma condição de estrita sobrevivência, de manter o funcionamento do organismo corporal e mental, nada mais sendo relevante. 
     ainda, em contraste aos que são “do mal”, talvez como uma forma de não deixar morrer no filho a capacidade de nutrir esperança – ou de aprender a não desistir – o pai lhe ensina sobre as “pessoas do bem”, mais raras mas ainda existentes. e assim cormac constrói uma personagem criança com suaves características de amadurecimento que se desenvolvem durante a narrativa, como a preparar-lhe para o que acontecerá ao final, quando será preciso tornar-se capaz de escolhas independentes e racionais, desprovidas de apego emocional, sem contudo perder a ternura, tão peculiar a ele no decorrer da história.
     há um momento, inclusive, no qual o leitor se sente também esperançoso de encontrar nas páginas seguintes um mundo mais próximo ao que hoje conhecemos: cores e construções vivas, ir e vir de pessoas, comida nos supermercados. é mais ou menos na metade do livro, quando pai e filho descobrem um esconderijo subterrâneo em uma das casas ainda não destruídas. um esconderijo repleto de alimentos enlatados e conservados. um esconderijo onde eles ficam por dias, não se sabe quantos exatamente – pois  outra característica do livro é a ausência de elementos temporais para situar o leitor, algo compreensível, afinal, se pai e filho não sabem que dia, mês ou ano é, por que nós deveríamos saber?
     eles caminham em direção ao sul, onde é menos frio, segundo o pai. e em direção ao litoral, à água do mar, onde podem encontrar ainda, quem sabe, animais, algum elemento da natureza, sabe-se lá. caminham porque ficar parado não adianta nada. caminham carregando alguns cobertores puídos, um carrinho de compras com alimentos cada vez mais escassos e um revólver com poucas balas. poucas e marcantes balas. o mundo pós-apocalíptico descrito por mccarthy, além da quase ausência de cor e dos destroços materiais, apresenta ao leitor uma necessidade de sobrevivência inexplicável racionalmente, uma questão animalesca de instinto: ao mesmo tempo em que nos deparamos com um pai sobrevivendo pelo filho, há personagens que sobrevivem por e para comerem os outros poucos ainda vivos.
     por fim, “a estrada” marca também pela forma como é narrada. uma narrativa tão seca quanto o que sobrou de um mundo destruído, cujos detalhes não nos são explicados – e nem há necessidade de. conforme diz um dos raros personagens secundários que aparecem na história: “Acho que em tempos como estes quanto menos se disser melhor”. é o que faz cormac mccarthy nessa obra, característica mais uma vez observada num dos últimos diálogos entre pai e filho, em que aquele inicia com uma pergunta:
     “Quer que eu conte uma história?
     Não.
     Por que não?
     O menino olhou para ele e desviou o olhar.
     Por que não?
     Essas histórias não são verdadeiras.
     Elas não têm que ser verdadeiras. São histórias.
     É. Mas nas histórias estamos sempre ajudando as pessoas e nós não ajudamos as pessoas.
     Por que você não me conta uma história?
     Não quero.
     Está bem.
     Não tenho nenhuma história para contar.
     Você podia me contar uma história sobre você mesmo.
     Você já conhece todas as histórias sobre mim. Você estava lá.
     Você tem histórias por dentro que eu não conheço.
     Quer dizer como sonhos?
     Como sonhos. Ou coisas em que você pensa.
     É, mas as histórias deveriam ser felizes.
     Elas não têm que ser.
     Você sempre conta histórias felizes.
     Você não tem nenhuma história feliz?
     Elas são mais tipo vida real.
     Mas as minhas histórias não são.
     As suas histórias não são. Não.
     O homem o observava. A vida real é bem ruim?
     O que você acha?
     Bem, acho que ainda estamos aqui. Um bocado de coisas ruins aconteceu mas ainda estamos aqui.
     É.
     Você não acha que isso seja tão bom.
     Está bem para mim”.

ítalo puccini

terça-feira, 26 de novembro de 2019

e essa taça vamos conquistar

     vamos flamengo não há palavras com que eu possa definir não há palavras com que eu possa exprimir o que é ser flamengo é uma glória no cenário mundial eu sempre te amarei onde estiver estarei ó meu mengo e domingo eu vou ao maracanã flamengo joga amanhã eu vou pra lá o maraca é nosso vai começar a festa sai do chão sai do chão a torcida do mengão a bola rola e essa galera vai vibrar diz o gramado sai da frente é o mengão sempre amado o mais cotado seja na terra seja no mar quando o flamengo joga é casa cheia o maraca é nosso somos uma nação é lindo ver o mengão contagiando essa torcida essa cidade são dez estrelas a brilhar no céu do meu mengão o céu na noite que reluzia não vai ser de brincadeira ele vai ser campeão encantou o estácio ó paixão que arde sem parar cobra coral papagaio vintém vestir rubro-negro não tem pra ninguém acima de tudo rubro-negro teu manto é minha pele no meu peito teu escudo campeão o teu destino é ganhar em terra e mar ele vibra ele é fibra é time de tradição raça amor e paixão ó meu mengo estou sempre contigo somos uma nação os meus olhos estão brilhando meu coração palpitando de tanta felicidade fecho os olhos e lembro em dezembro de 81 botou os ingleses na roda e quem enfrenta reconhece o maior da história é mengo tengo no meu quengo é só flamengo tens na torcida uma força sem igual flamengo da dona de casa do povo sofrido do trabalhador meu glorioso flamengo cada jogo uma vitória cada vitória um carnaval flamengo do sul e do norte de todos os cantos de toda nação ó meu mengão eu gosto de você no asfalto e no morro é o bonde do mengão sem freio três a zero no liverpool ficou marcado na história vamos flamengo vamos ser campeão vamos flamengo time consagrado pelo povo preto encarnado idolatrado sua história sua glória seu nome é tradição é samba amor e paixão a minha maior alegria é ver o mengo campeão vamos fazer desse samba oração e do clamor dessa massa procissão cem anos de uma história quanta tradição vai flamengo balança a rede do adversário quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro lembrar você sou campeão mundial vamos buscar no sonho na filosofia na ciência e na magia explicação pra essa religião que a gente só pode sentir com o manto sagrado e a bandeira na mão é o ai jesus que torcida é essa por isso que digo uma vez flamengo sempre flamengo e agora o seu povo pede o mundo de novo zum zum zum zum zum zum a torcida quer mais um e o nome dele são vocês que vão dizer dale dale dale ô dale dale dale ô flamengo maravilhoso cheio de encantos mil mengão do meu coração flamengo maravilhoso campeão do meu brasil eu sempre hei de ser não importa onde esteja sempre estarei contigo que o seu futuro ainda será mais lindo que o seu presente que tão lindo é

ítalo puccini

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

hoje eu quero estar só

     parafraseando o lenine. o que não significa querer estar sozinho. e sobre solidão e multidão eu me recordo de uma temática bastante recorrente na literatura, talvez clichê justamente devido à recorrência: a dualidade aparência versus essência, muito presente por exemplo em machado de assis, que a abordou em variados romances e contos. a citar estes, creio que valem “o enfermeiro” e “um homem célebre”, além do romance introdutor do realismo no brasil “memórias póstumas de brás cubas”, afinal, nessas três histórias os personagens – principais e secundários – preocupam-se com o que aparentam aos outros, movendo-se, nessa obsessão, por vezes em caminhos contrários à essência que os constituía e por fim se sentindo sós de uma maneira bastante sofredora. o oposto de mim.
     em “o enfermeiro”, por exemplo, o personagem principal, narrador, após a morte do homem rude de quem cuidava, felisberto, sofre um drama de consciência, intensificado pela herança do enfermo, e a culpa o atormenta, num primeiro instante, ao questionar a possibilidade de ficar ou não com tal dinheiro, uma vez que fora ele quem matara o velho, após uma briga corporal – porém, as pessoas, não sabendo da causa mortis, elogiavam-no, por suportar durante tanto tempo cuidar de alguém tão rabugento. já o personagem de “um homem célebre”, pestana, vive e morre frustrado, em função de que, sendo um compositor de polcas, nunca assim se satisfez; queria mais, desejava criar obras clássicas. o destino lhe mostra que nascera para aquilo de que não gostava e assim morre bem com os homens e mal consigo mesmo.
     ainda, essa dualidade entre aparência e essência consta na poesia, encontrada nestes dois poemas: “mal secreto”, de raimundo correia, e “ante um cadáver”, de murilo mendes, sendo que o primeiro, poeta parnasiano, preocupado com o rigor formal do texto, escreve sobre o quanto a necessidade de ser socialmente aceito induz o indivíduo a agir de forma dissimulada:

“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

     enquanto o segundo, poeta modernista, mais afeito à liberdade formal, apresenta um olhar relacionando a aparência ao que há de inútil em nós, e a essência à solidão, afinal, é quando estamos sós que temos a oportunidade de sermos quem de fato somos:

“Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?

Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.”

     e é nesse viés em que me encontro e com o qual me identifico: de mais solidão e menos companhias, desde a infância enveredando por essa escolha, constatação que algumas sessões de análise terapêutica me ajudaram a assimilar e a entender enquanto comportamento essencial em mim, logo, distante de um sofrimento comumente associado à solidão, presente, a exemplo, nas ficções citadas. desse modo, uma vez isolado, sou “um homem mais sincero e mais justo comigo”, conforme canta o falcão, d’o rappa, e se atenua em mim uma suposta falta do outro, pois minha essência advém justamente da introspecção, do recolhimento e da energia poupada ao evitar interação desnecessária porque desinteressante. 
     daquilo que não me acrescenta eu me afasto, em terapia também compreendi. apego-me, pois, à literatura – à identificação com alguns escritos e à tentativa de escrever – da mesma forma que eu poderia abraçar-me à bebida ou aos encontros sociais. todas escolhas, sempre atreladas a renúncias. e como é bom saber se desprender daquilo com o qual não há identificação, sem necessidade de recorrer à extenuante aparência.

ítalo puccini

terça-feira, 12 de novembro de 2019

fazer poema lá na vila é um brinquedo

     e ouvir tuas composições, noel, é conhecer um cotidiano rio de janeiro de outrora – cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade mulher – ou, mais precisamente, a vila isabel, tão bem retratada por ti: “são paulo dá café / minas dá leite / e a vila isabel dá samba”. é o viés que pega o ouvinte e o leitor no contrapé, que faz dançar os galhos do arvoredo, que faz a lua nascer mais cedo. são teus versos os que fazem isso ao cronicar assim em forma de samba, noel. 
     samba este que não se aprende no colégio, sabemos, cujas rimas não são ai love you. nem no teu tempo, nem no meu. e por isso mesmo que vezemquando apresento a estudantes algumas amostras musicais desse gênero tão brasileiro, pensando que talvez se identifiquem com o ritmo ou com os escritos. se não pela possibilidade de se sentirem tocar pelos versos, ao menos apresento uma composição assim rica: “o sol da vila é triste / samba não assiste / porque a gente implora / sol, pela mor de deus / não vem agora / que as morenas / vão logo embora”. 
     e ouvindo-te eu aprendi que a vila não quer abafar ninguém, e sim apenas mostrar que faz samba também e que é uma cidade independente, não disposta a tirar patente. é o tal feitiço que há na vila, lugar onde o que não faltava era conversa de botequim e exigência de um bom atendimento do garçom. aliás, qual foi o resultado do futebol por aí? aqui só dá flamengo. também não sei vestir casaca, não sou um tipo zero do tipo que não tem tipo que com todo tipo se parece. 
     e, tendo ou não cem mil réis, não há quem não cantarole o refrão de “com que roupa?” nos momentos, bastante frequentes, em que ficamos a matutar o que vestir. ah, tu sabias o que dizias. ô, se sabias: “quanto a você da aristocracia / que tem dinheiro mas não compra alegria / há de viver eternamente sendo escrava dessa gente / que cultiva a hipocrisia”. machado de assis te aplaudiria, tenho certeza. inclusive, um dia eu gostei de uma vida boêmia. hoje, eu prefiro os amigos. afinal, onde está a honestidade? eis o xis do problema, tal qual estava lá naquela carta que tu recebestes: “quem é da boemia / usa e abusa da diplomacia / mas não gosta de ninguém”. 
     permita-me, noel, para finalizar esta breve conversa, uma pergunta-cretina: paixão não te aniquila? olha que te vejo muito naquele gago apaixonado, hein? mas não vou insistir nessa vereda, não. com paixão não se brinca. é preciso um bocado de respeito pelo sentimento do outro, afinal, “um grande amor tem sempre um triste fim” e “quem suportar uma paixão / sentirá que o samba então / nasce do coração”. como um último desejo. 

ítalo puccini

terça-feira, 5 de novembro de 2019

a escrita enquanto reparação




     até que ponto a escrita é capaz de reparar algo? é o que tenho me perguntado desde que assisti novamente ao filme “desejo e reparação”, dirigido por joe wright, baseado no livro “reparação”, do ian mcewan. e essa indagação se origina no que nos apresenta a narrativa: a escrita de uma história, por uma das personagens, como forma de reparar um erro cometido por ela há muitos anos. então que eu refaço a pergunta: até que ponto a escrita é capaz de reparar, ou seja, consertar um erro? repara a ação já cometida? ou se transforma em uma obsessão? em portugal, por exemplo, o romance saiu intitulado “expiação”, que, de acordo com o dicionário, significa “ato ou efeito de expiar; reparação ou sofrimento pelo qual se expia uma culpa; castigo”. escrever expia o sentimento de culpa? para responder a isso, acredito que seja bom direcionar a questão, especificar este ato de reparar: a quem ele faz referência?

reparação
briony tallis, com 13 anos e uma mente muito criativa e imaginativa, acusa robbie, o filho de uma das empregadas que trabalhavam para a família tallis, de tentar violentar sexualmente lola, 15, prima de briony, em uma noite – esta que era muito especial, devido à visita do irmão das meninas, leon. tal acusação ocorre quando os primos gêmeos desaparecem durante o jantar, e todos se dispersam para procurá-los, pela grande propriedade onde reside a família. de fato lola estava sendo violentada, mas não por robbie. porém, briony resolve dizer a todos que tinha visto com seus próprios olhos que havia sido ele. 
por que culpá-lo? ciúmes, talvez. egoísmo, como uma tentativa de tornar o dia de alguém tão insuportável quanto fora o seu, repleto de frustrações: uma peça teatral, escrita por ela – para recepcionar o irmão – que não pode ser encenada, por má vontade dos envolvidos (lola e dois primos gêmeos, de dez anos) e duas surpresas desagradáveis, envolvendo a irmã, cecília, e o próprio robbie: a leitura de um bilhete escrito por robbie para ceci (quero beijar sua boceta molhada) e o flagra no momento em que os dois transavam na biblioteca da casa da família. estava completo o dia de briony. havia motivo, na cabeça da menina, para incriminar o garoto pobre cujos estudos foram bancados pelo pai das meninas. 
consequência desses fatos: robbie preso, cecília arrasada, um amor impossibilitado de ser vivido, uma família, a partir de então, dividida. 
a narrativa prossegue mostrando robbie nas forças armadas durante a 2ª guerra mundial, o pouco contato entre ele e ceci – por meio de cartas, como uma forma de manterem viva a paixão interrompida – e briony tentando receber o perdão da irmã, reconhecendo o erro que cometera. 
a menina de imaginação ímpar, que muito arriscara a escrita de histórias quando na infância, realiza o sonho de tornar-se escritora, alcançando, inclusive, bastante sucesso com seus livros publicados. e, já idosa, ao lançar seu 21º primeiro romance, ao qual dá o nome de “reparação”, narra a história de sua vida, assim como da de ceci e de robbie, a partir daquela noite que marcara todos eles. porém, no seu livro o casal se reencontra após a guerra e pode, enfim, viver uma apaixonada e sincera vida a dois, algo que, na realidade, não ocorre: ele morre na guerra, pouco antes de as tropas voltarem ao país, e ela falece, doente. ambos ainda muito jovens. 

escrita consciente e inconsciente
sem nunca ter sido capaz de escrever sobre o acontecimento que causou, briony consegue fazer isso no último livro, no fim da vida, como uma tentativa de reparar o erro que cometera, de ser perdoada pela irmã e pelo filho da empregada, oportunizando-lhes, na ficção, viverem o que em vida não puderam. e eu retomo a pergunta: até que ponto a escrita desse romance, por parte de briony, reparou o erro que ela cometera? a escrita é capaz de tal reparação? 
não desenvolvi esse texto para alcançar uma resposta. sinto essa questão com muitas variáveis, então que retomo um olhar para o fato: a quem esse ato de reparar faz referência? sendo assim, somente com o movimento de colocar-se no lugar do outro para dar conta de responder a isto. e a personagem, tanto no livro quanto no filme, não me pareceu curada da dor da culpa que durante toda a vida esteve com ela, percepção que me induz a pensar no quanto a escrita é apenas paliativa: nunca solução concreta e efetiva para as dores que carregamos conosco, e sim um meio de nos suportarmos, por mais que tentemos fugir delas a todo custo, pelo tempo que for. 
quantas são as vezes em que escrevemos a alguém com o intuito de nos desculparmos, de reatarmos um elo rompido por algo que causamos? e quando escrevemos para acusar, para gritar aquilo que nos dói, causado, em nossa opinião, pelo outro? é também a escrita como reparação, é também, a meu ver, esse almejo – que nos persegue e nós perseguimos – de colocarmos a vida em um trilho equilibrado, envolvendo princípios como justiça, talvez coerência ou moral. 
é suficiente tal escrita? ou, ampliando a indagação: em algum momento a escrita nos é suficiente? torço para que não, uma vez que a incompletude nos é necessária. prefiro pensar que escrevemos também como uma forma de conversarmos conosco mesmos e com aqueles que nos leem, de olharmos para o que nos rodeia, de nos ressignificarmos. daí a possibilidade de alcançarmos o que nos é consciente e inconsciente, ora desejando uma sensação de cura, ora uma de fuga. 
por exemplo: tenho desgostado do que escrevo – reconhecendo o quanto isto é um clichê. esse não gostar se deve a uma repetição: parece que todo texto meu é o mesmo há anos. acredito que seja o ritmo de escrita e de leitura que consegui fazer presente em mim – fator importante para quem inicia – entretanto, um vício que pode impedir-me de apresentar algo que eu considere novo. e essa situação se deve ao fato de que escrevo principalmente – e quase apenas – aquilo que vivo e conscientemente sinto. é uma escrita agarrada às vivências, ou seja, uma zona de conforto. 
mais difícil do que criar uma voz narrativa talvez seja liberar-se dela. e o caminho para uma mudança nessa quase crise-existencial-criativa passa por produzir o que não foi vivido, ficcionalizar de fato, ir para além daquilo que penso sobre mim e de como os outros possivelmente me veem. como me disse o enzo uma vez, “nesse além você se sabota e é capaz de um novo estilo”. e, de repente, alcanço traumas e culpas que saracoteiam dentro de mim. 
acredito nessa dupla possibilidade, de quem se esconde e se escancara a partir do texto, como se fosse possível optar por apenas uma forma. não é. mostramo-nos mais do que pressupomos mostrar, da mesma maneira que deixamos escondidas características nossas, por mais que tentemos escancará-las. isto porque é a escrita fuga e aproximação. dos outros e, principalmente, de nós mesmos.  

ítalo puccini

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

o alento no excesso


     o cristovão tezza também é bom nisso de ser cronista. e me utilizo aqui do também porque como romancista ele já me ganhou. e cronicando com ele – ou seja, lendo suas crônicas reunidas no livro “um operário em férias” – deparei-me com um parágrafo no qual me detive: “Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequação, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo”. e eu sinto assim a minha tentativa de escrita, pelo viés da ressignificação do que é vivido enquanto crise existencial.
     das minhas sessões de psicoterapia psicanalítica, por exemplo, sempre retorno e escrevo breves frases sobre aquilo de que falei, tornando mais compreensíveis e assimiláveis as angústias verbalizadas no set terapêutico. e os três anos nos quais me afastei da escrita sulcaram em mim marcas indeléveis, afagadas momentaneamente pela verborragia textual que me move nos últimos meses. e assim refaço o significado da palavra vazio e compreendo minha escolha pela arte, na adolescência, como um movimento para aplacar essa característica inerente à condição humana.
     porque eu acredito na existência do vazio e de uma veia artística em cada um de nós, sem significar consciência a respeito dela, muito menos conhecimento sobre como explorá-la. pois há um medo oriundo da arte – de quem a faz e de quem a recebe. um medo provocado pela arte por simplesmente existirmos, nós e ela. que talvez não seja medo e sim estranhamento, porque o novo assusta, sabemos. contudo, tememos mas não a largamos; é o canto do pai do mato: atrai-nos para comer nosso coração. e não há maldade nisso. a escolha é nossa de ir até ela ou de recebê-la quando rompe à nossa frente. e nos incomoda, muito. tira-nos o chão, desestrutura-nos certezas, ameaça-nos crenças. um rebuliço. 
     ao mesmo tempo em que é essa coisa tão bonita cantada pela elis em “essa mulher”: ser cantora, ser artista. talvez uma eterna inadequação sentida pelo sujeito diariamente a cada interatividade social da qual dificilmente se escapa por mais que se tente. é arte que brota nos poros a partir de cada detalhe do que se vive, momentos nos quais se entende a felicidade enquanto porvir e as cicatrizes marcas intransferíveis, constituíntes da individualidade de cada um. o elefante que vive dentro de mim, por exemplo, sou eu mesmo, e se comunica pela palavra e por modos de linguagem. 
     minha arte, pois, é a escrita, e escrever, para mim, é dar a cara a tapa. assim me sinto e por isso recorro a ela: pela crise, pelo vazio, pela angústia, por sentir-me inadequado, desafinado com o mundo, com as pessoas, ainda que no meu peito também bata um coração. escrever é para mim consertá-lo. porque é importante enfiar o dedo na ferida e deixá-la sangrar até curar, para dela brotar o que existe quiçá no inconsciente. e essa escrita pseudorracional esconde aquilo que dói e esconde o motivo de ela existir: volteia, permeia, não aprofunda sem que nos permitamos a. cutuca e fere, enquanto elemento de cura, se assim a quisermos. 
     às vezes, penso, é no excesso que encontramos alento. quando a sensação de vazio é tanta que corremos a preenchê-la: por medo, por fuga, por fraqueza. ser humano é isto. e como é bom dizer que não está tudo bem, que não mais é possível ouvir gonzaguinha, por exemplo, sem que o corpo rasgue por dentro – palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando. pela escrita.

ítalo puccini

quarta-feira, 31 de julho de 2019

pronomes interrogativos

quando
se confundiu
vingança
com um prato
que se come
frio

quem
se esqueceu de que
é emoção
a vingança
e portanto
quente

como viver
com a consciência
de que
uma vingança
nunca será
plena

qual o sentido
e a eficácia
de uma vingança
silenciosa
e desconhecida
ao alvo dela

quanto desejá-la
se a vingança
é um dedo
pressionado
contra
a própria dor

o que
é a vingança
se não
uma tentativa
frustrada
de autoproteção

ítalo puccini


segunda-feira, 10 de junho de 2019

crônica - ou ensaio - à la hatoum


     não conhecia o milton hatoum cronista. deparei-me com o livro “Um solitário à espreita” e o comprei, fazendo vibrar o prazer, pouco comum a mim, de uma compra inesperada. o título, aliás, é muito condizente com o jeito de ser do autor: um sujeito recluso, pouco midiático e de publicações quase raras. autor de apenas cinco romances e um livro de contos: com dois deles, “Relato de um certo Oriente” (1999) e “Cinzas do Norte” (2005) foi vencedor do jabuti de melhor romance; com “Órfãos do Eldorado” (2008), segundo colocado no mesmo prêmio; com “Dois irmãos” (2000), conquistou o terceiro lugar; e “A noite da espera” é o mais recente, lançado em 2017. quatro dos cinco romances são premiadíssimos, no brasil e no mundo, publicados em dezessete países até hoje. 
     a característica da crônica desse escritor amazonense é a de esticá-la um tanto a mais do que costuma ser comum ao gênero. são crônicas-quase-ensaios, nas quais o autor apresenta um fato cotidiano nos primeiros parágrafos para chegar ao, digamos, ponto-chave do texto, e então abordá-lo por mais algumas tantas linhas. isto na maioria das 94 crônicas que compõem o livro, algo que não diminui sua escrita, pelo contrário: apresentar uma unidade no modo como escreve demonstra segurança e a mim, enquanto leitor, muito satisfaz. 
     é dessa maneira que o autor desenvolve, por exemplo, “Liberdade em Caiena”, crônica que me despertou a escrever esta com a qual, até aqui, enrolo o leitor. no começo do seu texto, hatoum aborda a dificuldade que tem de conviver com tantas informações em um ritmo tão frenético de tempo, o que lhe resulta deixar passar a oportunidade de participar de debates, palestras e até encontros entre amigos: “Agora, ao fazer uma faxina na caixa de entrada, notei que havia 122 mensagens não lidas”. desse ponto para chegar ao tema: o convite, recusado pelo autor, por não ver a mensagem em tempo, para ir a caiena, capital da guiana francesa, lugar de muitas lembranças trazidas da infância e de seu avô.
     e o que me conduziu a escrever este texto foi esse modo de vida digamos que desacelerado do escritor amazonense, com o qual, a meu ver, muito se pode aprender, uma vez que, atualmente, não somos mais ensinados a viver ligados à tecnologia, e sim o contrário: nascemos imbricados a ela e precisaríamos, urgentemente, aprendermos a nos desligarmos mais. 
      algo assim como o que foi proposto pela jornalista eliane brum, quando escreveu uma crônica intitulada “É urgente recuperar o sentido de urgência”, na qual aborda o quanto nos tornamos dependentes do imediatismo, nas diferentes esferas sociais, privando-nos da nossa intimidade em prol de nos mostrarmos disponíveis a todos a qualquer momento do dia, atitude esta que eu vejo soar como uma pseudo-demonstração de atenção e respeito pelo próximo. assim argumenta brum: “Estamos vivendo como se tudo fosse urgente. Urgente o suficiente para acessar alguém. E para exigir desse alguém uma resposta imediata. Como se o tempo do ‘outro’ fosse, por direito, também o ‘meu’ tempo”. são tantas as frases certeiras que convido o leitor a ler a crônica dela na íntegra, percebendo, assim, a existência de outras maneiras de viver, oriundas de uma reflexão que envolve principalmente o ato de respeitar a si mesmo nesse emaranhado virtual que nos abraça e do qual não conseguimos, a priori, desgarrarmo-nos - afinal, alerta-nos a escritora, “Viver no tempo do outro – de todos e de qualquer um – é uma tragédia contemporânea”, da qual, parece-me, hatoum tem a mesma consciência.
      e é uma forma de preenchermos nosso ego, acrescento. ao mostrarmo-nos dispostos a qualquer momento do dia para sermos interrompidos de diferentes maneiras – sms, ligação telefônica, redes sociais, whatsap, visita-sem-combinação-prévia – disfarçamos o nosso egoísmo sob a veste falsa de dar atenção ao outro. ao expormos tal disponibilidade, estamos na verdade gritando para que nos procurem, para que nos olhem, para que curtam – o mais rápido possível – aquilo que acabamos de postar. e retribuímos o ato como forma de garantir que ele nos seja devolvido. 
      é o nosso ato de covardia, sobre o qual escreve o romancista jonathan franzen, num ensaio intitulado “Curtir é covardia”, no qual o autor apresenta um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro, uma vez que o amor, enquanto verdadeiro, denuncia a mentira de que o mundo tecnoconsumista – e imediatista – exige de nós compreensão: “Se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida”.
      os comportamentos de milton hatoum e eliane brum (ela por exemplo abriu mão do aparelho celular e faz questão de ser contatada somente por e-mail) são aqui cronicados não como referência em termos de relações humano-sociais, e sim como alternativa, eco do que propôs franzen: um comportamento consciente, não-dependente, muito menos falso ou egoísta. 
      sendo assim, não defendo nesta croniqueta – que está mais para um ensaio – um posicionamento de contrariedade radical. se escrevo sobre esse assunto é porque a mim ele ainda se apresenta bastante confuso, tamanha a linha tênue que nos separa de uma dependência e de uma aversão tecnológica e social, ambas atitudes extremistas que nos implicam perdas. uma vez que somos bebês no contato com essa ultramodernidade na qual estamos inseridos, nada melhor do que o exercício de nos olharmos dentro desse meio, porque mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, há décadas nos cantou o renato.

ítalo puccini

segunda-feira, 27 de maio de 2019

eu desejo, eu escolho, eu existo




     “eu desejo”, “eu desejo”, “eu desejo”. as primeiras cenas do filme “caminhos da floresta” apresentam esta frase. são quatro personagens que surgem na tela, revezando-se: joão deseja que sua vaca – milke white – dê leite;  cinderela deseja poder ir ao baile no palácio do rei; e o padeiro, mais sua esposa, desejam poder ter um filho. todos movem suas vidas a partir e em função desses desejos. ainda, um pouco mais pra frente nesse musical, surge a bruxa, cujo desejo é o de desfazer o feitiço lhe imposto pela própria mãe, o da feiura, que assim a transformou quando o pai do padeiro roubou delas os feijões mágicos. 
  e dessa forma esses desejos e histórias de vida se entrelaçam na narrativa, cuja trama paralela são os contos de fadas “joão e o pé de feijão”, “chapeuzinho vermelho”, “cinderela” e “rapunzel”. da seguinte maneira: a bruxa diz ao padeiro e à esposa deste que eles somente poderão ter o filho que desejam caso consigam para ela quatro elementos no meio da floresta: uma vaca branca como leite, um capuz vermelho como sangue, uma mecha de cabelo amarela como milho e um sapatinho tão puro como ouro. pois o casal vai até a floresta e lá se depara com: joão e sua vaca branca – a quem dão feijões mágicos em troca do animal; chapeuzinho e seu capuz vermelho; rapunzel e seu cabelo amarelo; cinderela e o sapatinho de ouro. 
  eis a trama desse musical, dirigido pelo mesmo diretor de “chicago”, rob marshall, que alterna cenas cativantes com outras superficiais e até mesmo vergonhosas, tal qual a canção apresentada pelo príncipe e seu irmão. porém, a reflexão que mais me martelou a cabeça durante o filme vem daquela primeira frase: “eu desejo”, remetendo-me ao livro de jorge forbes, “você quer o que deseja?”, cujo princípio, com base na psicanálise, é o de nos levar à pergunta-título: será que realmente queremos aquilo que desejamos?
  os personagens de “caminhos da floresta” percebem, mais para o final da narrativa, o quanto se equivocaram com relação ao que desejavam, afinal, conforme lacan, “desejar é sempre desejar outra coisa”. por exemplo: o padeiro se preocupa em ser um pai pobre e tão ruim quanto foi seu próprio pai; cinderela se desencanta com a vida no palácio; e a bruxa descobre, com a juventude restaurada, a perda de seus poderes. desse modo, eles repensam as próprias vidas e os caminhos que trilharão a partir daquele momento quando alcançaram aquilo um dia desejado. 

     esse filme me relembrou de um livro que anualmente lia para algumas turmas minhas: “joão e os sete gigantes mortais”, de sam swope, cuja história apresenta um personagem chamado joão, menino órfão, abandonado em uma aldeia quando bebê, e que lá cresceu, solitário, odiado por todos e considerado um menino mau, mau, mau. porém, diferentemente dos personagens do filme de rob marshall, joão tinha um só desejo e uma certeza sobre este desejo: queria encontrar a sua mãe. pois bem, a história se delineia para o leitor mostrando caminhos pelos quais o personagem principal passou para quem sabe alcançar o seu desejo. o enredo, de modo básico, é: um dia, saindo da aldeia onde não era bem quisto, ele encontrou um homenzinho, dividiu com este uma maçã, e recebeu, em troca, um feijão mágico, com o qual joão fez um pedido: quero minha mãe. nesse momento, apareceu diante dele uma vaca, e com ela o menino seguiu em frente, enfrentando gigantes mortais que rondavam a aldeia. 
     joão, ao contrário dos personagens de “caminhos da floresta”, queria exatamente o que desejava. pediu a mãe, recebeu a vaca, e não desistiu, muito menos mudou de ideia. porém, o que há de semelhança entre os personagens dessas duas histórias é que todos, independentemente do que sentiram após as escolhas que fizeram, antes disso assumiram uma decisão, escolheram um caminho, por consequência abrindo mão de outro e daquela vida que até então tinham. dessa forma, pois, todos exerceram a existência em caráter prático, de acordo com a analogia a descartes, proposta por forbes: “para tomar decisão, é necessário que a pessoa se pense, ou seja, penso, logo existo”. e se, ao pensar eu existo, ao desejar eu decido.

ítalo puccini