segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"uma necessidade é um desejo que enlouqueceu"

faz tempo, já, eu lancei uma daquelas perguntas-cretinas a algumas pessoas, por e-mail: “que personagem você gostaria de ser?”. a pergunta advém do gosto que tenho pelo palomar, personagem homônimo do ítalo, o calvino. e como a preguiça é inerente ao ato da escrita, esse remendo de texto ficou por um bom tempo parado, sem que eu tivesse a mínima vontade de mexer nele. até que encontrei o livro “palomar” à venda, depois de anos procurando-o. e isso ocorreu na livraria cultura, em curitiba, aquele aconchego de lugar dividido em três pisos, muito espaçoso, colorido, repleto de livros que aqui por joinville eu não consigo, e onde os que lá trabalham, sem serem chatos, sorriem e conversam com o cliente, procurando atender a todas as necessidades deste.
então, encontrada a obra, reli-a. ‘treli’, na verdade. um livro belíssimo, escrito com uma sutileza que convida o leitor a ler cada texto e, antes de seguir ao próximo, parar e pensar no que acabou de ler. “palomar” é isto, é um livro no qual não se acelera. em que a leitura é ritmada, é cuidadosa como a escrita, em que um segundo de distração coloca em risco uma frase de rara beleza e ironia.
se eu pudesse ser um personagem, eu seria o palomar. por considerar-nos (a ele e a mim) semelhantes, porém com salutar diferença. o sr. palomar gosta é do silêncio, eu também; gosta do ato de observar, de conjectuar, de pensar, eu também; mas não de dizer, e aqui eu já me vejo diferente dele. não porque eu seja um falante-contínuo, e sim porque muito escrevo do que observo e penso – e sinto. ele não. e é nisso que recai minha grande admiração por ele. pois o sr. palomar pensa, não diz nada, apenas observa, e leva o leitor a um pensar sem medidas, a um pensar muito provavelmente não pensado, a um estado de consciência ainda não atingido. a um silêncio ainda não experimentado.
e aquela tal pergunta-cretina veio-me a partir de uma reflexão, a de que nem sempre a paixão por um personagem vem associada à vontade de sê-lo. é nisto que reside o cuidado em tal resposta. por vezes, a identificação existe, seja pela semelhança ou pela diferença, o que não significa que queiramos abrir mão de quem somos para sermos outro. edu explicita bem isso: “Veja o caso da Emília do Lobato. Sou apx por ela, mas não queria ser uma boneca, nem viver no sítio do picapau, por mais mágico que fosse. Mas outra criança, a Zazie (de um livro de Raymond Queneau), essa eu gostaria de ser. Por ser tão desbocada e esperta quanto Emília, e pelos amigos e parentes doidíssimos que ela tem em Paris”. o contrário da josi, apaixonada “uma vez por Rosálio, - o homem mais sensível que já vi - em o Voo da Guará Vermelho, da Maria Valéria Rezende”, o que não significa que ela queria sê-lo. a identificação da josi é com outras três personagens: macabéa, da hora da estrela da clarice, um pouco palomar também, “mas assumo todas as características da personagem sem nome em 'Tudo o que você não soube', da Fernanda Young”.
camila pimenta e enzo, ambos de itajaí, responderam e me deixaram ‘boiando’, por não conhecer os personagens citados. e que justificativas as deles! ela: “Eu sou apaixonada pelo João Dias, do livro Aritmética, da Fernanda Yong, e por sinal queria muito ser a América, do mesmo livro... acho toda a história dos dois tão genuína e louca... me arrepio toda.... ai ai ai!!!!”. ele: “Eu gostaria de ser Margaret Schlegel, daquele colosso de livro chamado "Howards End"! Aliás, eu acho que já sou ela.. só que numa trama como aquela é que a gente gira o bombril!”
e o gui contini, para finalizar, foi pelo universo infanto: “um personagem que eu gostaria de ser é o "Mortimer", da trilogia "Mundo de Tinta", da maravilhosa Cornelia Funcke.... Personagem o qual tem o poder da leitura, de retirar ou colocar nos (dos) livros pessoas, personagens, dando vida às palavras e tendo uma leitura estupendamente essencial”. e quem é que não tem esse desejo de, vezemquando, fazer saltar das páginas um personagem? escrever esta croniqueta tem um poucomuito disso, e daí vem o título dela, uma frase do osho. é um desejo-leitor. mas bem pode vir a ser uma necessidade-leitora.

ítalo puccini

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Você sente saudade de quê?

          Eis que, lendo “A máquina de fazer espanhóis”, do Valter Hugo Mãe, deparei-me com um forte trecho (redundância para a produção deste portuga) em que o personagem-narrador, silva, de 84 anos, descreve a saudade que sente da recém-falecida esposa e lança esta frase: “que a vida era só isto. é só isto, um novo modo de ter saudades, ou de lhes sobreviver”. Então, como me é característico, resolvi dar um alou, via e-mail, a alguns amigos. Um alou bastante singelo. Título do e-mail: perguntinha boba; conteúdo: você sente saudade de que? Como diz uma amiga minha: “de onde tu tiras essas perguntas cretinas?” Pois é.
            Saudade é sentimento pouco presente em uns e outros. Há quem não morra de saudades. E que é cobrado por não demonstrar tal sentimento. E cá fico perguntando-me de que forma se ajeitam na vida os que sentem tal sentir por pessoas de outras nacionalidades, afinal, não é palavra só da língua portuguesa esta saudade? “Mas como sentir saudade de um momento se ele fica grande exatamente pelo momento?” Como? Levando em conta que a falta incorporada ninguém nos tira, talvez.
            Tem gente que leva a saudade até Ilhota, aos sábados pedalando com alguns amigos. Que a leva até os natais em família, “uma festa louca e sem noção”. Assim como há os que sentem saudades “de poucas coisas”. E não as citam. Com justiça. Poucas coisas tais como: do segundo ano do ensino médio; de falar e sentir o cheiro da avó; de cama feita e dos cachorros; de padarias; de amigos; “de pessoas, claro, mas isso falta em todos os lugares”; de ver – com os olhos físicos – o pai; de ter os pais juntos; “dos irmãos também”; de comer empadas com o avô; e do amor. E de amar: amarga que nem jiló.
            Pessoas admiráveis, estas que se escancararam, mesmo que pouco. Saudade de um amor carnal e também de alma, “que a gente insiste em achar que é pra sempre, mas sempre não é e talvez nunca seja. De acordar junto, de às vezes dormir separado”. Sentir falta “de uma possibilidade de carinho que só acredito fazer-se presente num relacionamento amoroso”. Tão corajosas quanto os que dizem não sentir saudades da infância, “porque as alegrias do passado podem ser renovadas”.
            Mas há a saudade da infância em alguns, sim; de jogar futebol – e sinuca –, de comer caranguejo, e até saudade de mim – e das minhas aulas, afinal, aluno bajulador é sempre bem-vindo. Ora veja. Gente que responde enchendo-me o ego: “saudade de olhar pros livros que vêm junto contigo”; da casa de mãe minha – e dos que por lá passam –, do meu cabelo seboso, da minha risada escrota; “vish, tanta coisa”. Sem contar os dizeres da mãe e das tias, estas, sim, justificando a relação familiar e clamando pela minha presença. E até saudade dos primos, estes familiares tão próximos e tão distantes.
            Sendo assim, não satisfeito em provocar, lancei a mesma indagação no facebook e no twitter. E o pessoal resolveu encarar este olhar-pra-dentro. Até saudade de uma morena capixaba apareceu, vinda – esta saudade – de um jaraguaense. Porque a saudade não tem distância, dizem. Até da Hebe Camargo vale. Assim como de si mesma – puta saudade pra doer, hein? Saudade daquilo que ainda não foi vivido; daquilo que já foi e não volta: o primeiro ano da faculdade, por exemplo. Saudade do verão, do mar e da areia da praia; do anjo da guarda; de cheiro de neném; de pessoas distantes e de quando não era preciso estudar para matemática. Justo. Saudade de fim de tarde caminhando pelos canteiros.
            E ainda há os que não responderam. Compreensível. Tanto quanto os que responderam e devolveram a mim a pergunta. Ora, não é pergunta que se responda. (Muito menos com palavras impublicáveis, como uns e outros fizeram). Cabe, sim, finalizar esta croniqueta com um convite: ouvir “brigitte bardot”, do zeca baleiro. A saudade é prego parafuso, não nos esqueçamos.

Ítalo Puccini

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A escrita como tentativa de preservação: de um lugar, de muitas vidas


           
        Eis o que é possível encontrar no filme “Narradores de Javé”, dirigido por Eliane Caffé, vencedor de melhor filme no VII Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este (2004) e no 5º Festival de Cinema des 3 Ameriques (2004, Quebec, Canadá). Produção nacional de 2003, a obra aborda o sumiço da cidade de Javé, a ser submersa pelas águas de uma represa.
            Taí um filme que procuro trabalhar em sala de aula com turmas do Ensino Médio, abordando não somente a desagradável situação da tomada de terras alheias, mas também a importância da escrita e sua distância para a oralidade. São conversas que transitam pela trama, pela importância que adquirem a memória e a oralidade na história, e pelos caminhos através dos quais o filme nos leva à literatura.
Tudo acontece a partir do drama que enfrentam os moradores de Javé: a instalação de uma usina elétrica no vilarejo vai levá-lo a não mais existir no mapa. E a solução que lhes resta é uma só: registrar por escrito o vilarejo, tornando-o de valor histórico e científico, conforme falam. É preciso contar a história de Indalécio, o fundador de Javé.
Eis, então, o momento em que surge o personagem Antonio Biá, o salvador dos habitantes de Javé, aquele que em anos anteriores fora expulso de lá pelo motivo que agora o trazia de volta: a escrita de histórias. Biá é chamado para escrever a história de Javé por ser o único ali que sabe escrever. Biá trabalhava na agência dos correios em Javé. Como ninguém fazia uso da escrita e da leitura, ele passou a inventar histórias dos moradores da localidade, como forma de tornar a agência movimentada, e assegurar seu emprego. Justamente por isto foi expulso pelos moradores quando descobriram o que ele inventava. 
No momento em que Biá passa a ouvir as histórias dos moradores de Javé é que passamos nós, telespectadores, a percebermos como a memória oral de cada um privilegia aspectos e detalhes que ninguém conhece e que jamais serão registrados como de fato aconteceram. Passamos a perceber o quanto a escrita não dá conta daquilo que é da oralidade. E também o quanto toda escrita fica marcada por aquele que a produz, o que nos leva a pensarmos na isenção do historiador no momento de registrar uma história.
Biá vai ouvindo as versões de cada habitante de Javé. Cada um "puxando a sardinha" para o seu lado, apresentando algum detalhe que antes não havia. Como já diz o ditado: quem conta um conto aumenta um ponto. E existem sempre três verdades: a minha, a sua, e a que de fato existe. E Biá deixava claro aos moradores: "Uma coisa é o fato acontecido. Outra, o fato escrito". E as verdades produzidas pelos moradores do vilarejo são compostas de memória. De uma memória mítica que se encontra com a fala. Uma memória que é feita de fala, que é produzida pela narração. 
            Diante disso, algumas pontes que podemos estabelecer com a literatura fazem referência a dois aspectos textuais apresentados pelo teórico Mikhail Bakhtin: a polifonia, ou seja, as várias vozes de um discurso, uma vez que a coexistência de inúmeros narradores, narrativas e formas de narração compõe uma heterogeneidade discursiva, observada no filme nas várias narrativas que o compõem; o dialogismo, a partir de uma citação do próprio Bakhtin: "Tudo se reduz ao diálogo. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina, nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida". 
            Além disso, importante lembrar das várias leituras que podem e devem ser feitas de uma mesma história. A história de Javé é, na verdade, as histórias de Javé. A história de cada morador é a leitura que cada um deles faz da localidade em que vive, o que prova que não existe uma só maneira de se ler algo, e sim maneiras de se ler. E de se escrever.

Ítalo Puccini

domingo, 10 de junho de 2012

tive gêmeos




minha felicidade está em fazer sessenta exemplares, trinta de cada volume. e de dá-los às pessoas. vai rápido, não importa. e não darei dois pra uma só pessoa. quem o receber, receberá somente um. e, se quiser ler o outro, emprestará com alguém. é rapidinha. é fazer o livro circular. livro de estante já tem um monte nesse mundo. 


o meu muito obrigado ao enzo, pelo incentivo e pela ousadia da editora cartoneira.

ítalo puccini

sábado, 9 de junho de 2012

leitura em família em matéria de jornal.

saiu no jornal a notícia, em jaraguá do sul/sc, na edição de sexta-feira, 08/06, matéria sobre o exemplo de leitura do meu pai pra mim e de mim pro meu irmão mais novo.



Exemplo do pai para o filho

Além de dividir gosto por leitura, Vilmar e Ítalo escreveram obra biográfica juntos

Uma confirmação de que o hábito da leitura pode ser transmitido de pai para filho está na família Puccini. Apaixonado por livros, Vilmar Puccini Júnior, 55 anos, passou o exemplo ao filho, Ítalo Puccini, 25. Ele via o pai folhear jornais e revistas, sobretudo quando o assunto era esporte. Dos artigos esportivos para os romances foi um pulo e, hoje, Ítalo é professor de literatura e cronista, o que lhe valeu a participação no bate-papo da Feira do Livro de Jaraguá do Sul na última sexta-feira. Tudo convergiu para que Vilmar e Ítalo trabalhassem juntos no livro lançado em 2009 que narra a história do pai e avô Vilmar Puccini, ex-goleiro do time joinvilense Caxias. “A Trajetória de Puccini” hoje está disponível apenas por encomenda.

Por causa da profissão, Ítalo chega a ler dois livros por semana e possui um acervo de quase mil exemplares. O pai também sempre tem um na cabeceira e seu gênero preferido é a biografia. Eles confirmam que a bagagem literária foi essencial na hora de se aventurarem na escrita. “Dediquei quatro anos em pesquisas para que o livro pudesse ser escrito. Mas o processo começou muito antes. Todos os livros que já lemos nos ajudaram de alguma forma”, afirma Vilmar.

Além do gosto por leitura, um herdou do outro manias parecidas. Folhear um jornal, por exemplo, só de trás para frente. “Tomei gosto pela leitura vendo o meu pai ler o jornal de trás para frente. Isso a gente faz até hoje. Comecei a ler os jornais, depois a revista “Placar”, procurei livros sobre futebol e, dali para frente, romances. Foi pelo exemplo de casa que comecei a ler”, descreve Ítalo.

Agora, ele trata de repassar o exemplo do pai ao irmão por parte de mãe, Luigi, de nove anos. O menino começou a ler há dois anos e é sempre incentivado. “Desde que ele tem três anos leio com ele. Agora, está começando a ler sozinho mas, ainda sim, procuro sempre ler junto, para que tenha o gosto pela leitura sem ser de forma forçada”, relata Ítalo.

Sobre as novas tecnologias, como os tablets, as opiniões se dividem. Vilmar acredita que nada se compara a folhear um livro. “Para mim, o livro de papel não vai acabar nunca. Tocar no papel e apreciar uma boa leitura não tem preço”, defende. Ítalo é mais aberto à novidade. “No meu caso, que preciso estar sempre com a bolsa cheia de livros, é interessante, o tablet vem para facilitar. Posso carregar mais obras comigo. Claro que tenho uma paixão pelo objeto, mas a tecnologia chega para complementar”, contrapõe.
SAIBA MAIS:
Publicado em edição limitada, “A Trajetória de Puccini” está hoje disponível apenas por encomenda. Quem tiver interesse, pode contatar o autor Ítalo Puccini pelo email italopuccini@yahoo.com.br

Pelo Caxias, Vilmar Puccini foi bicampeão catarinense nos anos 1950. Foi ainda presidente, técnico e goleiro do time da empresa Tigre. Fez 84 anos em maio e mora em Jaraguá com o filho.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fodidos pela arte. E pela linguagem.

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo". 
Esse Eduardo Galeano, no texto "Celebração das contradições/ 2", no "Livro dos abraços", leva-me à palavra. Que por si só contradiz. E consequentemente acontece com quem dela faz uso. E que bom que assim é. Perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é, acredito.
Existimos pela incompletude da linguagem. Não nos há como fugir disso.
Há uma passagem da peça "Passport", da Companhia Rústicos Teatral, em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "O que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".
E não é assim? 
A sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado. Mesmo falando a mesma língua, Cidadão e Soldado não conseguem se entender quando chegam ordens do Oficial (o chefe). O Cidadão é preso como um suposto terrorista e é na cela que, segundo o diretor da peça, Samuel Kühn, os personagens são envolvidos “em situações absurdas desencadeadas, sobretudo, pelo conflito linguístico, em que são abordadas questões como a incomunicabilidade e a perda de sentido". A peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas, mas não só. Ela inquieta o leitor que assiste a ela porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. Nós que assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. Talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. Quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele. 
Mas voltando à frase presente na peça, desde que assisti a ela duas vezes, não me sai da cabeça. E eu vivo repetindo-a, às vezes em alto e bom som. Como que para internalizá-la mais e mais. E para me sentir mais leve também. Porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco, não é mesmo? 
Eu escrevo personagens por aí. Dia sim, outro também. Vários personagens, às vezes. Noutras, grudo-me em um só. Sinto-me sempre acompanhado. Não só ouço, como também falo. Dividimos pedaços de vida. Compartilhamos felicidades e frustrações. Trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. Pela fala. E acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. É melhor assim. Por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. E o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. É um querer de cada um. Compartilhados. Misturados. Mas não tornado um só. 
Então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida. 
É uma forma de nos abraçarmos, talvez. 

Ítalo Puccini

sábado, 31 de março de 2012

maneiras de ler um livro

isso de ler em sala de aula é coisa que faço desde que comecei a lecionar, há cinco anos. haja coragem, eu sei. e haja sinceridade. só é possível manter mais de trinta alunos atentos se houver demonstração de sinceridade e de paixão naquilo que se faz. ninguém acredita no que não transpassa segurança, não é mesmo? logo, tenho ciência, desde os idos da graduação, de que somente contribuirei para a formação de alunos-leitores se eu me demonstrar um professor-leitor - e não só leitor, mas uma pessoa apaixonada pela leitura. preciso, sim, ser exemplo daquilo que cobro em sala de aula. então que leio muito: sozinho, em grupos, na rua, no banheiro ou no colégio. e leio com os meus alunos, porque simplesmente mandá-los ler jamais será suficiente. 
(introdução feita, vamos ao fato cronicado):
tou lendo com minhas quatro sextas séries o livro "joão e os sete gigantes mortais", do sam swope. leitura 'no miudinho'. um capítulo por semana. e os capítulos são curtos. coisa de dez minutos da aula e pronto. dá-lhe conversa! por dois motivos que se abraçam: porque 'minhas crias' falam muito e porque o livro abre para muitas divagações. é empolgante. e é uma ansiedade tremenda! não tem aula em que um par de alunos não venha me perguntar: "vai ler o joão hoje pra gente, professor?". baita frase, hein? quando nos referimos a um livro dessa forma - "joão", um apelido - é porque ele está internalizado. e, uma vez internalizado, é porque a leitura é verdadeira, está entranhada (palavra horrível, eu sei) no leitor. meus alunos parecem estar assim com o nosso joão. e é nosso porque estamos caminhando com o personagem há semanas já e assim continuaremos durante mais algumas. 
ser leitor é fazer companhia ao personagem, não é? 



e é sentar para ouvir a história da mesma forma como ele, o personagem, segue a caminhada sentado em sua vaca: de trás pra frente. (deixa eu explicar: joão ganhou três feijões mágicos de um caminhante com quem ele dividiu a única maçã que tinha - isto no começo de sua trajetória, ao abandonar a vila em que morava e na qual era culpado de tudo por ser mau, inclusive de atrair gigantes mortais para lá, porque, segundo o padre da vila, "mal atrai mal", então joão os estava atraindo. com os feijões, fez o pedido de conhecer sua mãe (sim, não a conhecia), e, ao abrir os olhos, deparou-se com uma vaca. eis a vida de joão. não restou a ele outra coisa a não ser subir na vaca e seguir em frente, mesmo sem saber para onde. acontece que, ao montar no animal, joão se atrapalhou todo e sentou de costas para a cabeça dela. passou, assim, a observar o mundo de costas para o que vinha pela frente). 



alguns alunos de uma das minhas turmas, então, ao ouvir essa parte da história (que é ainda no começo - foi no primeiro dia em que comecei a ler este livro para eles), sentaram de costas para mim, dizendo "ele sentou assim na vaca, ó, professor". e eu achei aquela rápida reação sensacional e me dirigi ao fundo da sala de aula, onde de lá continuei a ler para eles. e assim agora fazemos a cada semana, a cada capítulo desde então. acompanhamos joão e suas lutas com os gigantes mortais como se estivéssemos todos sentados de costas no lombo da vaca. não ousamos abandonar nosso personagem, o nosso joão. 
você ousaria?

ítalo puccini

quarta-feira, 11 de maio de 2011

leituras que marcam

sexta-feira passada dei minha última aula no colégio de jaraguá do sul em que lecionava literatura desde 2007. os colégios em que agora leciono são outros. os alunos são outros. os trabalhos desenvolvidos são outros. as leituras - de mundo e de livros - são outras. nem melhores nem piores. apenas outras. e o que mais marca a mim nesses anos são os livros lidos com aqueles alunos. fica muito claro como uma leitura é sempre uma nova leitura a cada vez que é feita. porque um mesmo livro eu li, por exemplo, com quatro diferentes turmas, em quatro diferentes anos. e em cada leitura era um novo livro para mim. e para eles, claro. e não se consegue contribuir para a formação de um aluno leitor sem ler com este aluno. a preposição é mais "com" do que "para". e o imperativo do verbo ler pouco deve constar nessa mediação. é preciso ler junto, não mandar ler. e era isso o que eu mais fazia com aquela guriada. que no começo sentiu bastante a diferença. o não estar acostumado a ler em sala foi um empecilho. mas quando a prática é feita com gosto, com paixão, ela contagia. e agora eu saio de lá e ouço e leio de alguns alunos dizeres como este: "vou sentir falta é de suas leituras". e eu não preciso de mais nada para tocar a vida em frente com a sensação de que algo foi bem feito nesse trajeto. com a certeza de que alguém se encantou com "os meninos da rua paulo" ou com "as aventuras de robinson crusoé". que alguém entrou na história do "sofá estampado" ou da "flauta mágica" ou do "cadáver na banheira". que alguém se permitiu conhecer "o espelho dos nomes", "moby dick" e "de repente, nas profundezas do bosque". que alguém correu atrás do "diário de anne frank" após ler apenas alguns trechos em sala. até que chega um momento em que os livros pedem novos leitores. às vezes partem em busca disso. ou são levados para. e eu sou um levador de livros. assim me despeço desses alunos-leitores.

ítalo puccini

sábado, 30 de abril de 2011

Histórias que eu ouvi e gosto de contar

O universo indígena é habitado por muitas histórias. São todas bastante vivas, porque reais. (MUNDURUKU, Daniel)

            O título deste escrito é também o nome de um dos livros do escritor Daniel Munduruku, autor de “Parece que foi ontem” e “Do mundo do centro da Terra do mundo de cima”, entre outros, todos livros que apresentam como temática mitos e lendas indígenas.
            É sabido que a prática de contar e de ouvir histórias é muito mais antiga do que podemos imaginar. Remete a nossos ancestrais mais primitivos. Muito antes da invenção do papel ou do livro ela já se fazia presente, deixando marcas culturais em diferentes épocas, registrando fatos e causos, ainda que por um tempo determinado, uma vez que a história oral não garante a eternidade do que é contado (se pensarmos bem, nem mesmo as histórias impressas, no ritmo de produção, de publicação e de consumo que temos hoje, garantem isto).
            Na cultura indígena, por exemplo, a maior felicidade alcançada pelos homens é a de ser avô, pela oportunidade que se apresenta a eles de contar histórias, muitas histórias, a seus filhos e netos. A oralidade é marca importantíssima nesta cultura, mas não só ela. A quantidade de livros que vem sendo publicada contando ou recontando mitos indígenas sugere a preocupação que existe na divulgação e no alcance dessas histórias através de outros meios.
            Daniel Munduruku é indígena. Nascido em Belém(PA), índio da nação Munduruku, “nasceu índio e gosta de ser índio”, conforme é apresentado em seus livros. É formado em Filosofia pela UNISAL – Lorena, e é diretor-presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – INBRAPI, cujo objetivo é a defesa do patrimônio cultural e dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas brasileiros.
O escritor indígena com maior repercussão atualmente é autor premiado de muitos livros com histórias que apresentam ao leitor mitos e lendas do universo indígena, como “Coisas de índio”, “As serpentes que roubaram a noite” e “O segredo da chuva”. Mitos e lendas porque lenda é a forma como o mito é contado. Toda lenda apresenta um mito. Mas nem todo mito é apresentado por uma lenda. Lenda vem do latim legere, que significa ler. Mito é palavra grega que significa discurso, oralidade. No mito existe a busca de um porquê para a vida, que muitas vezes é contado em uma lenda.
            E aqui se apresenta ao leitor o recontar. Porque um mito pode ser contado e recontado de diferentes formas, diversas vezes. Para o mito de como surgiu a noite, por exemplo, Munduruku apresenta dois livros, citados no primeiro parágrafo deste escrito. Conforme conta Clarice, em “Como nasceram as estrelas”, “Sempre é uma história que não acaba nunca”.
            Para construir é preciso, antes, desconstruir. Pensar mitos e lendas pode ser seguir esse caminho da reconstrução. Do reconto. É isto que faz perpetuar histórias por gerações. A história é manutenção de vida das/nas coisas. A história é construção de identidade de um povo. A perda de identidade é parte do processo de morte de uma cultura. Diante disso, precisamos, como leitores e professores, dos contos e de seus recontos. Dos mitos e das lendas. Das diversas formas de perpetuarmos histórias e vidas. Histórias de vidas. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.
Minha lida com o texto literário – como leitor e como professor – é o de pensá-lo sempre como uma possibilidade de ressignificação. Junto ao texto literário é preciso que o aluno reconstrua. E para reconstruir é preciso, antes, que o texto seja destruído pelo leitor. Ou seja, objetivo que meu aluno produza sobre o texto que lê, construa seus sentidos para o que está lendo, ressignifique o texto com o qual está em contato. Literatura precisa ser contato. Toda leitura precisa ser um contato. Não contato no sentido físico exatamente. Mas contato no sentido de tocar em algo, produzir algo novo a partir desse novo toque, uma vez que nos ressignificamos o tempo todo, pelo simples fato de vivermos uns com os outros.
São vidas com as quais nos deparamos nas histórias da cultura indígena e também nas histórias sobre passarinhos, por exemplo. São vidas diferentes? Claro que são. Cada vida é uma vida. Mas a diferença não reside só nisto. Reside no modo como são contadas. O Bartolomeu Campos de Queirós, por exemplo, conta que

Para bem criar passarinhos é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. (...) Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro.

Já o Marcos Bagno não conta sobre passarinhos, mas sim sobre corujas. Ou, mais especificamente, sobre Murucututu, a grande coruja da noite, que é “mais que grande, enorme. Seu gemido ecoa pela noite, Murucututu, arrepiando os corações de quem se atreve a escutar”.
É a avó quem conta para a sua neta a história de Murucututu, com a intenção de frear os avanços da menina na descoberta do mundo. Mas esta neta não temia nem o mundo nem as histórias: “Achava bonito só pela beleza de ser história, lenda, conto, fantasia de miragem mirabolante. Mas acreditar, ela, isso mesmo é que nunquinha”.
            Talvez porque contar histórias seja compor os silêncios sugeridos pelo Manoel de Barros. Os silêncios que cada um traz dentro de si para compartilhar ao contar e ouvir uma história. Porque há silêncios que falam. E aprendendo isto a gente aprende o que ninguém nunca soube. Adivinha mistérios. Sente de longe o cheiro de algum segredo. E até consegue enxergar no escuro. Como faz a personagem que avoa com Murucututu.
            Contar histórias pode ser também fazer voar as palavras para encontrar seus silêncios a serem compostos.

Ensaio produzido para o PROLIJ - Programa Institucional de Literatura Infantil Juvenil da UNIVILLE. 

Ítalo Puccini

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

aforismo


toda criança é uma ausência de horário


ítalo puccini