segunda-feira, 10 de junho de 2019

crônica - ou ensaio - à la hatoum


     não conhecia o milton hatoum cronista. deparei-me com o livro “Um solitário à espreita” e o comprei, fazendo vibrar o prazer, pouco comum a mim, de uma compra inesperada. o título, aliás, é muito condizente com o jeito de ser do autor: um sujeito recluso, pouco midiático e de publicações quase raras. autor de apenas cinco romances e um livro de contos: com dois deles, “Relato de um certo Oriente” (1999) e “Cinzas do Norte” (2005) foi vencedor do jabuti de melhor romance; com “Órfãos do Eldorado” (2008), segundo colocado no mesmo prêmio; com “Dois irmãos” (2000), conquistou o terceiro lugar; e “A noite da espera” é o mais recente, lançado em 2017. quatro dos cinco romances são premiadíssimos, no brasil e no mundo, publicados em dezessete países até hoje. 
     a característica da crônica desse escritor amazonense é a de esticá-la um tanto a mais do que costuma ser comum ao gênero. são crônicas-quase-ensaios, nas quais o autor apresenta um fato cotidiano nos primeiros parágrafos para chegar ao, digamos, ponto-chave do texto, e então abordá-lo por mais algumas tantas linhas. isto na maioria das 94 crônicas que compõem o livro, algo que não diminui sua escrita, pelo contrário: apresentar uma unidade no modo como escreve demonstra segurança e a mim, enquanto leitor, muito satisfaz. 
     é dessa maneira que o autor desenvolve, por exemplo, “Liberdade em Caiena”, crônica que me despertou a escrever esta com a qual, até aqui, enrolo o leitor. no começo do seu texto, hatoum aborda a dificuldade que tem de conviver com tantas informações em um ritmo tão frenético de tempo, o que lhe resulta deixar passar a oportunidade de participar de debates, palestras e até encontros entre amigos: “Agora, ao fazer uma faxina na caixa de entrada, notei que havia 122 mensagens não lidas”. desse ponto para chegar ao tema: o convite, recusado pelo autor, por não ver a mensagem em tempo, para ir a caiena, capital da guiana francesa, lugar de muitas lembranças trazidas da infância e de seu avô.
     e o que me conduziu a escrever este texto foi esse modo de vida digamos que desacelerado do escritor amazonense, com o qual, a meu ver, muito se pode aprender, uma vez que, atualmente, não somos mais ensinados a viver ligados à tecnologia, e sim o contrário: nascemos imbricados a ela e precisaríamos, urgentemente, aprendermos a nos desligarmos mais. 
      algo assim como o que foi proposto pela jornalista eliane brum, quando escreveu uma crônica intitulada “É urgente recuperar o sentido de urgência”, na qual aborda o quanto nos tornamos dependentes do imediatismo, nas diferentes esferas sociais, privando-nos da nossa intimidade em prol de nos mostrarmos disponíveis a todos a qualquer momento do dia, atitude esta que eu vejo soar como uma pseudo-demonstração de atenção e respeito pelo próximo. assim argumenta brum: “Estamos vivendo como se tudo fosse urgente. Urgente o suficiente para acessar alguém. E para exigir desse alguém uma resposta imediata. Como se o tempo do ‘outro’ fosse, por direito, também o ‘meu’ tempo”. são tantas as frases certeiras que convido o leitor a ler a crônica dela na íntegra, percebendo, assim, a existência de outras maneiras de viver, oriundas de uma reflexão que envolve principalmente o ato de respeitar a si mesmo nesse emaranhado virtual que nos abraça e do qual não conseguimos, a priori, desgarrarmo-nos - afinal, alerta-nos a escritora, “Viver no tempo do outro – de todos e de qualquer um – é uma tragédia contemporânea”, da qual, parece-me, hatoum tem a mesma consciência.
      e é uma forma de preenchermos nosso ego, acrescento. ao mostrarmo-nos dispostos a qualquer momento do dia para sermos interrompidos de diferentes maneiras – sms, ligação telefônica, redes sociais, whatsap, visita-sem-combinação-prévia – disfarçamos o nosso egoísmo sob a veste falsa de dar atenção ao outro. ao expormos tal disponibilidade, estamos na verdade gritando para que nos procurem, para que nos olhem, para que curtam – o mais rápido possível – aquilo que acabamos de postar. e retribuímos o ato como forma de garantir que ele nos seja devolvido. 
      é o nosso ato de covardia, sobre o qual escreve o romancista jonathan franzen, num ensaio intitulado “Curtir é covardia”, no qual o autor apresenta um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro, uma vez que o amor, enquanto verdadeiro, denuncia a mentira de que o mundo tecnoconsumista – e imediatista – exige de nós compreensão: “Se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida”.
      os comportamentos de milton hatoum e eliane brum (ela por exemplo abriu mão do aparelho celular e faz questão de ser contatada somente por e-mail) são aqui cronicados não como referência em termos de relações humano-sociais, e sim como alternativa, eco do que propôs franzen: um comportamento consciente, não-dependente, muito menos falso ou egoísta. 
      sendo assim, não defendo nesta croniqueta – que está mais para um ensaio – um posicionamento de contrariedade radical. se escrevo sobre esse assunto é porque a mim ele ainda se apresenta bastante confuso, tamanha a linha tênue que nos separa de uma dependência e de uma aversão tecnológica e social, ambas atitudes extremistas que nos implicam perdas. uma vez que somos bebês no contato com essa ultramodernidade na qual estamos inseridos, nada melhor do que o exercício de nos olharmos dentro desse meio, porque mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, há décadas nos cantou o renato.

ítalo puccini

segunda-feira, 27 de maio de 2019

eu desejo, eu escolho, eu existo




     “eu desejo”, “eu desejo”, “eu desejo”. as primeiras cenas do filme “caminhos da floresta” apresentam esta frase. são quatro personagens que surgem na tela, revezando-se: joão deseja que sua vaca – milke white – dê leite;  cinderela deseja poder ir ao baile no palácio do rei; e o padeiro, mais sua esposa, desejam poder ter um filho. todos movem suas vidas a partir e em função desses desejos. ainda, um pouco mais pra frente nesse musical, surge a bruxa, cujo desejo é o de desfazer o feitiço lhe imposto pela própria mãe, o da feiura, que assim a transformou quando o pai do padeiro roubou delas os feijões mágicos. 
  e dessa forma esses desejos e histórias de vida se entrelaçam na narrativa, cuja trama paralela são os contos de fadas “joão e o pé de feijão”, “chapeuzinho vermelho”, “cinderela” e “rapunzel”. da seguinte maneira: a bruxa diz ao padeiro e à esposa deste que eles somente poderão ter o filho que desejam caso consigam para ela quatro elementos no meio da floresta: uma vaca branca como leite, um capuz vermelho como sangue, uma mecha de cabelo amarela como milho e um sapatinho tão puro como ouro. pois o casal vai até a floresta e lá se depara com: joão e sua vaca branca – a quem dão feijões mágicos em troca do animal; chapeuzinho e seu capuz vermelho; rapunzel e seu cabelo amarelo; cinderela e o sapatinho de ouro. 
  eis a trama desse musical, dirigido pelo mesmo diretor de “chicago”, rob marshall, que alterna cenas cativantes com outras superficiais e até mesmo vergonhosas, tal qual a canção apresentada pelo príncipe e seu irmão. porém, a reflexão que mais me martelou a cabeça durante o filme vem daquela primeira frase: “eu desejo”, remetendo-me ao livro de jorge forbes, “você quer o que deseja?”, cujo princípio, com base na psicanálise, é o de nos levar à pergunta-título: será que realmente queremos aquilo que desejamos?
  os personagens de “caminhos da floresta” percebem, mais para o final da narrativa, o quanto se equivocaram com relação ao que desejavam, afinal, conforme lacan, “desejar é sempre desejar outra coisa”. por exemplo: o padeiro se preocupa em ser um pai pobre e tão ruim quanto foi seu próprio pai; cinderela se desencanta com a vida no palácio; e a bruxa descobre, com a juventude restaurada, a perda de seus poderes. desse modo, eles repensam as próprias vidas e os caminhos que trilharão a partir daquele momento quando alcançaram aquilo um dia desejado. 

     esse filme me relembrou de um livro que anualmente lia para algumas turmas minhas: “joão e os sete gigantes mortais”, de sam swope, cuja história apresenta um personagem chamado joão, menino órfão, abandonado em uma aldeia quando bebê, e que lá cresceu, solitário, odiado por todos e considerado um menino mau, mau, mau. porém, diferentemente dos personagens do filme de rob marshall, joão tinha um só desejo e uma certeza sobre este desejo: queria encontrar a sua mãe. pois bem, a história se delineia para o leitor mostrando caminhos pelos quais o personagem principal passou para quem sabe alcançar o seu desejo. o enredo, de modo básico, é: um dia, saindo da aldeia onde não era bem quisto, ele encontrou um homenzinho, dividiu com este uma maçã, e recebeu, em troca, um feijão mágico, com o qual joão fez um pedido: quero minha mãe. nesse momento, apareceu diante dele uma vaca, e com ela o menino seguiu em frente, enfrentando gigantes mortais que rondavam a aldeia. 
     joão, ao contrário dos personagens de “caminhos da floresta”, queria exatamente o que desejava. pediu a mãe, recebeu a vaca, e não desistiu, muito menos mudou de ideia. porém, o que há de semelhança entre os personagens dessas duas histórias é que todos, independentemente do que sentiram após as escolhas que fizeram, antes disso assumiram uma decisão, escolheram um caminho, por consequência abrindo mão de outro e daquela vida que até então tinham. dessa forma, pois, todos exerceram a existência em caráter prático, de acordo com a analogia a descartes, proposta por forbes: “para tomar decisão, é necessário que a pessoa se pense, ou seja, penso, logo existo”. e se, ao pensar eu existo, ao desejar eu decido.

ítalo puccini

segunda-feira, 6 de maio de 2019

não é impossível ser feliz sozinho

     e me desculpe, tom, se a partir do título estabeleço um diálogo. veio-me tão forte que desejo expor sem cerimônias. porque algumas frases sabem ser porradas, cabendo-nos, então, bem utilizá-las com essa função. é o caso. 
     quem é que nunca teve medo de amar, não é mesmo, tom?
     o pescador, por exemplo, tem dois amores. um bem na terra, um bem no mar. 
     às vezes, é saudável ser sozinho, você não acha? até a beleza passa sozinha, a da garota de ipanema. acredito que de conflito o mundo já está repleto, portanto, um cadim de paz é sempre bem-vindo. e com isso defendo a ideia de que muitas das relações que estabelecemos com as pessoas nos causam dores e infelicidades. o que era para ser bom, assim não o é. fundamental é mesmo o amor, sem dúvidas. porém, é possível amar lá de longe, lá do mar, daquilo que não sabemos contar. o que nos encaminha a relativizar esse estar sozinho: isoladamente numa ilha não vivemos, então sozinho não somos. é condição humana básica a interação com outros seres, afinal, até mesmo robinson crusoé criou formas de sentir-se acompanhado na ilha onde esteve por mais de trinta anos. contudo, desassociando-nos da condição amorosa, por exemplo, torna-se possível tal viver. sendo assim, confundindo-me todo e quase vulgarmente falando, dá e não dá para ser feliz sozinho. 
     pois há quartas-feiras em que é só jogar a rede. e puxar. 
     joão ninguém que nos diga. 
     mudando um pouco de assunto, e ouvindo outra música, no peito dos desafinados também bate um coração, canta você. e eu leio a palavra desafinados para além do significado básico de alguém que não canta afinadamente: desafinado sou eu, muitas vezes grosseiro; desafinado somos nós, incompreensíveis e insatisfeitos; desafinada é a vida, essa alternância de sentires e razões. e que bom. seria tão mais desgastante se nos mantivéssemos sempre os mesmos, não é? tão insuportável se todo o dia acertássemos acordes e tons. vezemquando é válido ser vinícius de moraes. 
     quem não pede perdão nunca é perdoado. e também é preciso dizer adeus. à insensatez. 
     é pau é pedra é o fim do caminho. é o apito da fábrica de tecidos. ora é o corpo na cama ora é a lama é a lama. é a tristeza que não tem fim, a felicidade como a pluma que o vento vai levando pelo ar. que culmina com o medo matando o coração, afinal, é desconcertante rever o grande amor. e se você faz uma canção para esquecer luiza, tom, há quem escreva textos para exorcizar paixões também. minha alma, por exemplo, não canta, ela escreve. mesmo que seja um texto assim tão desprovido de energia. como uma vez me disse uma amiga: é que nos falta intimidade, a mim e a ti. 
esperemos, pois, o passarim pousar. 

ítalo puccini

domingo, 28 de abril de 2019

o que é saudade?


     um dia a josi me disse que o sentimento de saudade, pra ela, representa paz, porque, ao sentir saudade de alguém, ela se sente em sintonia com este alguém, como se um vivesse em estado de plenitude dentro do outro, de modo que esse sentimento – a saudade – pra ela nunca é dor ou sofrimento, mas aconchego e reciprocidade. e, assim, diferenciamos saudade de falta, esta responsável por machucar porque associada à perda e ao distanciamento eterno, como se cortassem um pedaço de nosso corpo, como se arrancassem de nós o sentido da existência. 
      e essa confusão de sentires e conceitos se dissemina socialmente muito em virtude da quantidade de músicas que discorrem sobre a saudade enquanto sinônimo daquilo que é falta e carência – segundo a definição do dicionário, inclusive, “saudade é sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, acontecimento ou lugar”, mas eu prefiro a definição da josi. e talvez a letra de música que melhor exemplifique esse conceito social seja “pedaço de mim”, do chico, na qual ele repetidas vezes se refere à pessoa amada assim “oh, pedaço de mim, oh, metade afastada/arrancada/exilada/amputada/adorada de mim”, definindo saudade como “pior tormento, pior que o esquecimento, dói como um barco, dor latejada, uma fisgada, o pior castigo”. 
     há de se cuidar também com a errônea crença de que saudade é exclusividade da língua portuguesa, pois, derivada do latim, existe em outras línguas românicas, envolvendo outros conceitos semânticos: no espanhol, soledad, e em catalão, soletad, ambas com sentido de nostalgia de casa; e na romena saudade tem o mesmo conceito semântico de dor – diz-se durere – mais próximo do nosso significado usual. ou seja, na língua portuguesa se romantizou tanto esse sentimento que se popularizou o apego a ele como se exclusivo: somos possessivos até com as palavras. 
     de modo que lá fui eu novamente mexer com as pessoas mais ou menos próximas a mim, indagando-lhes: o que é saudade? e mais uma vez me senti em êxtase diante das respostas e de tudo o que as envolve, porque não é somente na resposta que presto atenção, mas também na escolha das palavras, no tempo em que elas vêm, na reação de cada um diante das minhas provocações, quando inclusive o silêncio, ou seja, a não-resposta, representa muito. e adorei a analogia que me apresentaram de que saudade é como quando se assiste a um show do artista preferido, e ele não volta para o bis: você espera vivenciar mais daquilo que foi tão maravilhoso, mas, mesmo diante da ausência desse a mais, você se sente preenchido em felicidade e plenitude pelo que recém-viveu.
     ainda, gostei de quem me respondeu com outra pergunta: “o que não é mais saudade?” – fiquei pensando no quanto é horrível querer se livrar de um sentimento do qual não se consegue – e também agradeço a quem demonstrou preocupação comigo: “tá tudo bem, ítalo?”. assim como foram divertidas as três respostas irônicas: “nunca senti pra saber”; “é o que você sente por mim”; e “é meu coração palpitando quando ítalo lembra que eu existo”. eu gosto da ironia enquanto demonstração de carinho.
      carinho às vezes é coincidência: uma pessoa me disse justamente estar escrevendo sobre saudade, e do texto dela eu destaco o dizer de que “saudade é o lado bom da falta”, pois essa ideia se aproxima do conceito proposto pela josi e também apareceu em outras duas respostas: “saudade é bom, a despeito de toda dor que carrega” e “saudade é uma falta que move, uma ausência que faz companhia”. e dessa maneira eu me despertei para outra definição, igualmente distante da ideia de dor associada a esse sentimento, de que saudade é uma aposta e só existe enquanto virtualidade: no encontro ela já deixa de ser e se transforma em prazer ou decepção. 
      e decepção é a acepção mais comum sobre saudade, sempre associada à falta, em especial na literatura, no cinema e na música. responderam-me ser a saudade: “formigamento no peito, um aperto que sufoca e queima um pouco a garganta”; “é um negócio completamente desnecessário”; “falta de algo que fez parte, que se confundiu um dia com aquilo que eu era”; “vontade de ter pra vida toda o que já não se pode mais”; “desejar o que se sabe que não existe mais”; “uma falta que a gente cria”; e “é prego, e o coração, martelo”. definição dolorosa e de igual viés poético essa última, reverberada em outras três: saudade “é o revés de um parto”; “é reflexo do meu eu de mim apartado”; e “é uma pétala a menos de flor”. 
      nessa perspectiva metafórica, canta o lenine que “saudade é um bicho grande / muito maior do que eu penso / quanto mais se expande, mais denso / quão mais denso, mais se expande / saudade é um bicho imenso”, em”bicho saudade”, letra na qual ainda se versa ser a saudade “um lindo bicho / que da fome se orienta” – inclusive, uma pessoa a mim respondeu associando saudade à fome, quem sabe significando serem ambas inerentes a nós humanos. 
      e sentem os animais saudade? também perguntei aos queridos e queridas. e a maioria acredita que sim, principalmente quando há vínculo de convivência com humanos e filhotes; há quem tenha certeza da presença desse sentimento nos demais seres – isto porque sentimento envolve alma, e alma os animais têm – mas também houve quem assegurasse que não, porque estudos indicam que por exemplo os cães, quando veem seus donos saírem, sentem como se estes nunca mais fossem voltar, de tal forma que a alegria no reencontro é um renascimento, não uma saudade. porém, duas pessoas consideraram a saudade nos bichos presente justo no momento do reencontro e não enquanto um sentir a distância. 
      na próxima croniqueta, pois, direcionarei perguntas aos animais, afinal, conforme versa drummond, “o homem não é assim tão importante” – drummond, aliás, morreu doze dias após a morte da filha, diz-se que de saudade. 
      finalizo, portanto, novamente com a promessa de enviar a cada um dos participantes dessa entrevista uma playlist criada por eles mesmos, a partir das músicas que sugeriram a mim, momento no qual solicitei a cada um: envie-me uma ou mais músicas sobre saudade. afinal, conforme diz a pitty, em vinheta no novo disco, “saudade é vontade daquilo que já se sabe que gosta”, constatação à qual eu acrescento esta, de uma das pessoas a quem dirigi a pergunta-tema deste texto: “saudade é o desejo de reviver momentos de prazer e alegria com aqueles que nos fazem bem”.

https://open.spotify.com/playlist/0teWmczLxRt4aJRED199aQ?si=RbqMZMXrSUCcN9B37y_1xg

ítalo puccini

domingo, 7 de abril de 2019

tierra debaixo d'água

      hoje uma música morou em mim, levou-me à praia, ao mar, àquilo de que mais sinto falta, àquilo de que me afastei há anos. eu me afastei de mim mesmo há anos, e quando a consciência disso atravessou o esconderijo e se estabeleceu diante de mim, eu esmoreci. então, planejei uma maneira de fugir da minha memória: fumei um cigarro, caminhei, fiz compras, pintei, assisti a uma partida de futebol. e ouvi: “o mar promete terra seca ao viajante exausto”.
      porém não há facilidade em se alcançar o mar.
      eu era o viajante exausto, que não visitava mais o mar, logo, sem a promessa da terra seca. eu olhava para mim e para o universo de símbolos e pessoas ao meu entorno como se estivesse ausente, todo dia, vagando pela história da minha própria vida, “sonhando a cada dia em alcançar a praia”. e a mim, ao contrário do que canta a canção, sempre me acontece pensar que nada é para sempre, então eu me deixava mergulhado em frieza e infelicidade. eu desisti e me deixei, sabendo que “o mundo seguirá girando quando já não há mais nada”. 
     eu esperava pela “vida que sempre guarda algo que supera a melhor das fantasias”, mas era preciso que viesse de dentro de mim o inesperado. foi quando toda a dor me existente eu direcionei ao outro, a quem me alimentou dor – a dor que advém do desejo de não sentirmos dor. disparei, pois, “partes de poemas que eu tinha abandonado”, rimas de uma mente fatigada, melodias perdidas e descobri que a vingança – principalmente retórica e silenciosa – é sentimento libertador. 
     entretanto não suficiente. 
     às vezes, o trauma, vestido de lembrança esporádica, rouba-nos a coragem de viver o presente e exerce sobre nós dúvidas capciosas, originadoras de angústias outrora escondidas. assim, sentindo-me manipulado pelo passado, embaralho os quereres e desvirtuo a realidade, visualizando por exemplo maldade em ações nas quais ela não existe. e a desconfiança diante daquilo que se vive é sentimento corrosivo e sufocante, é pior que amígdala inchada e unha encravada ao mesmo tempo.
      escrevo, pois, para alcançar a praia, entrar no mar e debaixo d’água gritar até renascer, feito fênix, formando-me novamente um feto: sereno, confortável, amável, completo, em especial sem contato com o ar. porque o ar me faz provar um gosto de final, ele peca em excesso de seriedade e aqui fora sufoca e dificulta a mim inclusive o engolir a saliva – lugar onde o trauma faz morada também e alimenta a insegurança. e debaixo d’água tudo é mais bonito mais azul mais colorido: só nos falta respirar. 
      mas temos de respirar.
      e a escrita a mim é como um aparelho médico que auxilia esse processo automático – e portanto inconsciente, no entanto de tanta exigência – denominado respirar, é ela quem me conduz à tierra, ao mar, ao debaixo d’água, a um lugar por agora desconhecido, que me lembra de freud: não é nossa a casa onde moramos. e eu ainda não me tornei morada de mim mesmo, por enquanto, “porque faz tempo que eu já me fui, pois sempre estou partindo” e reconheço o erro em ansiar esse desejo, pois o vazio não apenas está em mim, ele me é, eu o sou. 
      logo, é importante aprender o exercício da resiliência, e para isso nesse momento eu vivo com o objetivo de não saber, ou seja, de desconhecer o que acontece ao meu entorno, uma vez que o ato de saber me causa temor, associado ao trauma de me sentir manipulado, usado e traído. assim, quando eu não vejo, não ouço e não sei, eu me defendo, e essa defesa não é do outro, mas de mim mesmo, do meu passado, de marcas ainda indeléveis, amenizadas quando entro no mar e escrevo. 

ítalo puccini

domingo, 31 de março de 2019

des


      assim sem acento é prefixo de oposição, negação ou falta; com acento – dês – é preposição antiga, substituída atualmente por desde, também ação do verbo dar conjugado na segunda pessoa do singular no presente do subjuntivo – que tu dês atenção a quem te ama – e no imperativo negativo: não dês atenção a quem não te quer. e entre essas duas acepções da palavra me interessa mais a primeira, mesmo que as frases de exemplo da segunda sejam muito oportunas.
      meu olhar para a palavra des enquanto falta existe desde que li, há anos, a terceira parte do “conto de facas”, do enzo, cujo título é justamente des, e nos textos ali presentes se entoa a dor de um fim de relacionamento, sendo o primeiro texto dessa parte justamente o motivo do término: “Descaso sm. 1. desatenção 2. falta de importância ou cuidado 3. desconsideração 4. neblina que se perfila nos olhos daquele que perdeu a única pessoa com quem se casaria em vida; espera, breu branco”. e nos demais textos do livro enzo trabalha com palavras como descuido, desejo, desterro, descida, descrença, desaparecer, desperto, descartar, desconhecido e andes. 
      segundo enzo, ainda, des é nome a ser dado a quem abandona a pessoa amada – no texto intitulado “Quatro minutos de olhar”, há a seguinte explicação: “Texto sobre Yashodara, a esposa que foi abandonada por Sidharta Gautama, o Buda. Seu des”. e esse significado desde então mora em mim, mais ou menos latente de acordo com os acontecimentos cotidianos e com a intensidade da memória nas veredas das vivências. de modo que minhas recentes separação matrimonial e demissão profissional me reacenderam essa lembrança.
     pois há poucos dias eu criei uma playlist com o propósito de reunir músicas cuja temática fale sobre o sentimento de falta do eu lírico, oriunda de um abandono amoroso, ou seja, que contenham letras expressivas de mentiras sinceras, migalhas dormidas, raspas, restos e pequenas porções de ilusão – atitudes típicas de uma pessoa apaixonada quando em desespero diante da perda de um amor. não exatamente porque eu vivencie tal caso, e sim devido ao meu interesse por esse recorte poético: não há nada melhor do que ouvir canções sobre dores amorosas quando estas não compõem o seu ser naquele momento. 
      e eu escolhi, também, saber de algumas pessoas próximas palavras cujo início seja com des, com a finalidade de ampliar o repertório de significados possíveis a essas três letras. e a experiência foi sensacional, a começar pela quantidade de palavras propostas por cada um dos convidados a esse exercício de pensar: houve quem me dissesse uma só palavra, foram duas pessoas – uma disse deslexia, enquanto a outra, despacito – escolhas bastante representativas de cada uma. em contrapartida, vieram 88 palavras de uma só pessoa, bastante destemida. e um convidado teve a desfaçatez de não participar: xablau pra você, irmão. 
     as palavras mais repetidas entre os dezessete participantes foram desespero, desdém e desculpas, ditas por sete deles, e dentre essas a de que eu mais gosto é desdém, pela sonoridade – gosto também, pelo som, de desditoso, deslize, desvario, desapego, desfile, desuso, desleal, desumano, deserto, desvio, desvelar, desaguar e desmembrar. inclusive, foi pensando nesses diferentes aspectos de se olhar para uma palavra que eu constatei quantas, por mais que comecem com esse prefixo cujo significado é de oposição à ideia da palavra original, não simbolizam sentido negativos, até mesmo porque são conjunções, preposições, conceitos ou variações verbais: destarte, desde, dessa, destro, desinência, desktop, desporto, design, destaque, desbravar, descer, desenhar e destino. e também há as que sugerem conotações positivas: desmentir, destemido, desinibido, destreza, despir, desejo, desencalhar, desbloquear, descomplicar, desarmar e desabafar.
     eu procurava, desde o início da brincadeira, por quatro palavras: descaso, desapaixonar, desonra e deslembrar. e elas apareceram assim: a primeira, três vezes; a segunda, duas vezes; a terceira, uma única vez; e a quarta, nem uma vez – só a encontrei no grande sertão do guima. enquanto tantas outras, ainda, alegraram-me porque tiradas do esquecimento em que viviam no meu mundo invertido: desordem, desatino, déspota, desdêmona, desamor, descanso, descaminho, desinteirar, desalinho, desalinização, desiluminador e desvelar. 
      por fim, gostei da reação dos participantes – menos do completo silêncio de um deles, atenção devidamente já chamada nesta croniqueta. a maioria não me questionou o porquê da minha intervenção, que foi: diga-me palavras que comecem com des. porém, alguns reagiram, mais ou menos surpresos, mais ou menos desconfiados, mais ou menos indignados, mais ou menos felizes: um me disse “tá faltando google na sua vida”,  demonstrando fina educação; três expuseram cansaço ou preocupação ao perguntarem “ajudei?”, “deu?”, “tá bão?”; um se assustou e questionou “assim do nada?”; outro dissertou raivosa indignação diante da minha recusa em explicar o motivo do meu pedido; e um me deixou muito feliz ao dizer que nunca mais pararia de pensar nessas palavras. 
     e esta croniqueta eu espero que cumpra essa função também, de instigá-los a continuarem à procura de palavras, no modo mais aleatório possível, relembrando-as, ressignificando-as e compartilhando-as. e a recompensa por mim prometida a cada um dos convidados – grato. daqui uma semana você receberá a recompensa – é este texto, em conjunto ao link da playlist, esta na qual há pelo menos uma música sugerida por cada um deles sobre dor amorosa, pra ser ouvida nos momentos bons e ruins, a depender da coragem e do impacto de um des na vida de cada um. 
ítalo puccini

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

são vírgulas

      as pernas, inclusive, têm vida própria, elas não sossegam, mesmo o corpo assim estando, parado, como exemplo, ao sentar-se para um lanche, uma refeição, alguma atividade de estudo ou trabalho, este corpo citado às vezes relaxa, mas elas, as pernas, as irrequietas pernas, balançam ao ritmo de algo que apenas a elas compete saber, parecem dançar ao som de alguma música, por ninguém mais ouvida, somente por elas, levando-as a um abrir e fechar, frenética  ou calmamente, entrecruzadas ou espaçadas, juntas-batendo-joelho-com-joelho, a um lado e ao outro, ritmadas, ou, enquanto uma descansa, a outra sacode para cima e para baixo, para cima e para baixo, descontroladamente, como se em poucos segundos fosse desgrudar-se do corpo e sair quicando, ainda ritmadamente, ainda ao som daquela música que lhes é própria, ou, também, há a perna que balança quando sobrecruzada à outra, típica posição culturalmente imposta às mulheres, porém tão comum aos homens, aos que são capazes de realmente cruzar uma perna sobre a outra e deixá-la a balançar, como se ali coubesse uma criança ou um cachorro ou um gato recém-nascidos, dependurados nesta perna que, da mesma forma, com igual ritmo, sobe e desce, sobe e desce, talvez assim descansando, talvez simbolizando a inquietação daquele a quem elas pertencem, ou são eles que a elas pertencem, não se sabe, mas elas não param, as pernas, enquanto parado está o corpo, há um movimento contínuo, independente, comum a todos os seres humanos, em alguns mais frenético, em outros menos perceptível, porém existente, constante, apesar das mudanças de posições e de ritmos, são gestos entre vírgulas, condutores de uma linearidade rítmica ao corpo no momento de este levantar-se, quase uma intervenção artística, uma espécie de empurrão justamente para este ato de levantar-se, algo inclusive com nome próprio, a síndrome das pernas inquietas, ou síndrome de ekbom, diagnosticada clinicamente, cujos sintomas envolvem alteração de sensibilidade e agitação motora involuntária, palavras bonitas, mas que não alcançam o significado preciso deste ato, ao contrário, podem até mesmo distorcê-lo, através da alegação de uma qualidade de vida comprometida ou da sensação de desconforto, outras expressões consideradas importantes, porém irrisórias, não há dores, não há formigamentos, não é predisposição genética ou ausência de dopamina e ferro em áreas motoras do cérebro que provoca este balançar das pernas, a ciência não alcança o que a arte faz acontecer com elas, as pernas, essa música própria, essas vírgulas, esse gesto espalhafatoso, deve ser realmente bom balançá-las,

ítalo puccini

quarta-feira, 22 de julho de 2015

fios de barba e de memória

            há quem deseje apagar da memória uma lembrança, esta sendo geralmente triste, associada à dor emocional ou física, relacionada a abalos psicológicos, uma vez que lidar com o sofrimento é uma arte para a qual nascemos sem aptidão. entretanto, existem pessoas cuja vontade seria a de eliminar da memórias traços vividos em êxtase de alegria e contentamento, como se fosse possível, então, reviver aquelas energias positivas na mesma – ou talvez até em maior – intensidade, como se fosse a primeira vez.

            “brilho eterno de uma mente sem lembranças” me levou a pensar nisso. e então lancei uma pergunta, no facebook e no twitter: “se você pudesse apagar de sua memória uma lembrança, qual você apagaria?”. uma pergunta capciosa, obviamente, digna de não ser respondida, pois quem é que vai abrir-se nas redes sociais para responder a algo íntimo? mas justo por esse motivo a lancei, a pergunta, envolta em uma tênue linha de esperança de me deparar com algo sincero e corajoso.
            recebi, pois, algumas poucas respostas, a maioria apontando o não-apagar das memórias, sejam boas ou ruins, sob o argumento de, assim, não excluir da vida as experiências vividas, sendo estas constituintes da formação do indivíduo enquanto sujeito. respostas, portanto, fluidas, contornando a pergunta, porém não a respondendo, afinal, conforme argumentado acima, ao respondê-la, escancara-se uma individualidade por si só subjetiva e, nesses momentos, a timidez assume o lugar da autopromoção.

            ainda, no mesmo dia em que terminei de assistir ao filme no qual jim carrey e kate winslet lindamente protagonizam o amor e seu entorno – eu costumo dormir ao assistir a filmes, então, faço isso em etapas – eu finalizei a leitura do “barba ensopada de sangue”, do daniel galera, cujo resultado foi um despertar desta croniqueta, partindo do pressuposto de que a tentativa de apagar da memória a existência da pessoa amada – o ponto central da película – apresenta-se como oposta à busca protagonizada pelo personagem barbudo do romance livresco, focado no objetivo de acrescentar vivências à sua memória: no caso, descobrir mais sobre o avô, a ele desconhecido a não ser pelas palavras proferidas pelo próprio pai, um dia antes de suicidar-se.
            é esse o mote da narrativa tensa desenvolvida pelo escritor gaúcho, na qual me senti mergulhado, ora identificando-me com a reclusão do personagem principal, ora sendo tomado pela curiosidade oriunda do suspense em torno justamente desse desejo do personagem em encontrar o avô e, por consequência, acrescentar vivências, emoções e informações à sua memória. de fato, o professor de natação – o protagonista do romance – quer experimentar algo como sendo a primeira vez. nem mesmo a sua face ser semelhante à do avô o satisfaz, ele pressente a necessidade – ainda que somente intuitiva, sem certeza concreta de algo – de ver o pai de seu pai para então compreender-se. e, independente dos acontecimentos futuros – não vou lançar spoilers – o personagem não deseja apagar da memória suas vivências, e nesse contexto se insere sua segurança em não exercer o perdão, por exemplo.  
            essa contradição, a meu ver presente nas duas histórias – o desejo em apagar algo da memória e o instinto em viver descobertas familiares – apontou-me algum caminho para pensar o ato de reler um livro e de assistir novamente a um filme, peça teatral ou espetáculo musical, destacando a quantidade de vezes nas quais nossa intenção é a de voltar a uma história já conhecida, seja para lembrar de detalhes narrados ou até mesmo com o objetivo de reviver aqueles sentimentos vividos enquanto nos deparávamos (pela primeira vez) com tal referência cultural. como se fosse possível vivenciar exatamente tais sentires.
digo isso porque tenho comigo a crença de que novamente deparar-se com uma obra de arte se configura como uma nova primeira vez, afinal, constituímo-nos diariamente enquanto sujeitos, ou seja, somos formados por nosso entorno, concomitantemente modelando-o – ideia filosófica do materialismo dialético concebido por nosso amigo marx – e, assim, a cada nova interpretação construída junto a algum elemento artístico, é um novo eu a ler ou assistir àquele elemento. portanto, não existe em mim o desejo de, por exemplo, apagar da memória romances já lidos ou assistidos, porque o ato de reler ou rever é, por si só, inovador. 
a primeira vez é sempre.
       finalizando momentaneamente esta conversa: recordar vem do latim “re-cordis”, ou seja, tornar a passar pelo coração – frase presente no “livro dos abraços”, do eduardo galeano – o que ratifica o argumento central desta croniqueta. sendo assim, logo, logo eu voltarei ao brilho eterno e ao barba ensopada, do mesmo modo como há pouco tempo entrei novamente na trama de “os meninos da rua paulo” e de “apenas uma vez”, ressignificando-os, pela primeira vez.

ítalo puccini 

sábado, 28 de março de 2015

entre poemas e contos, da bahia a florianópolis


       isso porque gregório de matos é baiano e franklin cascaes é manezinho da ilha. aquele, nascido e falecido no século xvii, doutor em direito pela universidade de coimbra, tornou-se o escritor mais representativo do barroco brasileiro, no que diz respeito ao texto literário. este, morador da ilha de nossa senhora do desterro, três séculos à frente de gregório, escritor, professor e escultor e desenhista, aprofundou-se no estudo sobre os costumes ilhéus, sendo considerado o artista mais completo da capital catarinense.
            um livro de poemas de gregório de matos – organizado por josé miguel wisnik – está na lista de livros obrigatórios da universidade federal do paraná – ufpr – e um livro de contos de franklin cascaes se encontra, como não poderia deixar de ser, na lista da universidade federal de santa catarina – ufsc. e eu, cumprindo com minhas funções docentes, tenho trabalhado em sala de aula tais obras, aprofundando o estudo a respeito dos autores, das suas características textuais e dos contextos nos quais eles produziram.
assim, numa bela tarde de quarta-feira, entre livros, provas e redações, eu pensei na possibilidade de escrever uma croniqueta – não haverá análise literária acadêmica aqui, é bom que se deixe claro – relacionando estes dois escritores, não somente devido aos textos de ambos, relação esta que ocorre através de elementos diferentes entre si, mas ao fato de que há, nessas literaturas, um importante aspecto: o reconhecimento cultural de dois estados brasileiros, distantes territorialmente, mas quem sabe próximos em afinidades culturais.
cada um à sua maneira, gregório e cascaes se valeram da arte literária – e cascaes de outras também, conforme já dito – para apresentarem aos leitores um pouco do que se vivia em salvador e em florianópolis nas respectivas épocas dos dois. desse modo, à medida que lemos os poemas satíricos e religiosos do poeta baiano, por exemplo, apropriamo-nos das críticas dirigidas pelo boca do inferno – o seu singelo apelido – ao governo do estado, à sociedade e à igreja naquele século, da mesma forma que se torna possível a nós conhecermos com riqueza de detalhes o linguajar do morador do interior da ilha de santa catarina, seus costumes, suas crenças e superstições em figuras míticas, tais quais lobisomens, bruxas e até o diabo, representado pela figura do anjo lúcifer.


sobre gregório, eu converso com meus alunos salientando a relevância cultural do seu texto, afinal, vivemos hoje quatro séculos à frente do momento retratado por ele, e ainda assim sua veia satírica se mantém atual, significando a ausência de avanços comportamentais no que diz respeito a nós, seres humanos. basta, para isso, a leitura de um poema tal qual este a seguir, no qual está exposta nossa atitude curiosa e egoísta:
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.


já cascaes faz uso constante de uma linguagem cuja preocupação reside no registro da língua falada pelos moradores de florianópolis quando a cidade ainda era denominada nossa senhora do desterro, uma língua, portanto, marcada por peculiaridades fonéticas, morfossintáticas, semânticas e lexicais:
“– Primo Nicolau! Vossa mecê acardita memo de vredade naquelas istória que o nosso povo lá das ihias dos Açôri (i) contavo prá nóis como vredaderas?
Ah!... Sim, acardito de vredade, sim, minha prima! E inté agora me veio uma delas, no bestunto da minha cabeça e que eu acho ela memo munto inzata. Como tu bem sabes e vancês todos que tão aqui me osvindo, aquelas ihia dos Açôri, de ondi os nosso avó, foram sempre munto infestada por muhié bruxa que roubam embarcação prá móde fazê viagem inté a Índia em quatro horas; que dão nóis nos rabo e crinas dos cavalo; chupo sangue de criancinha; intico com as pessoa grande e pratico mil malas-arte.”
no entanto, também há um viés crítico nos contos do escritor catarinense, como por exemplo através da negação ao uso do nome florianópolis, uma vez que o autor era contrário à politicagem inserida no projeto de modernização e urbanização da querida ilha de nossa senhora da conceição, vocativo utilizado pelo narrador tantas vezes ao longo do livro.
ainda, são múltiplos os caminhos a serem percorridos a partir da leitura dos textos desses dois escritores, conforme eu converso com meus alunos. gregório, por exemplo, fez uso reiterado de figuras de linguagem e de inversões sintáticas nos seus poemas, transitando pelo gênero lírico ao descrever a mulher amada e uma vida amena ao lado dela – inclusive, retomando o carpe diem, essência da estética clássica e neoclássica – enquanto cascaes explorou a riqueza sonora da linguagem açoriana, assim como, o imaginário popular na constituição cultural de um povo. com isso, da bahia a florianópolis, entre poemas e contos, é possível a nós conhecermos um pouco mais de nossa cultura brasileira.

ítalo puccini 

sexta-feira, 20 de março de 2015

cãimbra

uma crônica em forma de poema eu escrevi pros meus amigos do
grupo “udesc ou itapema?” que eu criei essa semana no whatsap
depois que eu comprei um iphone rosa
grupo composto por três pessoas um grupo aliás fonte de inspiração
por exemplo para esta espécie de crônica em forma de poema
que eu disse a eles que escreveria depois de lhes fazer a seguinte pergunta
vcs já sentiram cãimbra na uretra
assim mesmo com til e m e palavra abreviada
porque eu me recuso a escrever formal ou corretamente em chats
na verdade eu me liberto nesses espaços de interação virtual
eu que sempre fui fechado à ideia de modernidade tecnológica
agora percebo o quanto minha produção escrita advém de tais veículos
mas também muito disso se deve à intimidade que tenho
com algumas pessoas com as quais dialogo por ali
inclusive acho que vou falar disso na análise
é uma contradição interessante
mistura repulsa com criação poética
eu tou há meses querendo escrever um poema e nada consigo
agora com cinco dias de whatsap este poema mesmo que quase narrativo
assim me brota
uma aberração poética na verdade fonte de críticas por parte dos críticos literários
online
é um pessoal que deve sentir cãimbra na uretra ao mijar
para o qual eu não dou a mínima afinal se eu fosse escrever pensando em quem vai ler
eu jamais escreveria algo eu iria sei lá lecionar literatura
então que a minha escrita não se preocupa com o leitor
ao contrário de brás cubas que se dirigia aos seus de maneira agressiva
eu faço pouco caso eu sou displicente
eu escrevo poemas enquanto assisto a jogos de futebol
eu escrevo poemas com versos clichês
enquanto vejo o meu ídolo messi fazer poesia com a bola nos pés
mas esta metalinguagem da qual me utilizo é apenas recurso estilístico para desconversar
para tergiversar
para irritar
para não pensar na cãimbra que sinto na uretra
vcs também a sentem
ponto de interrogação

ítalo puccini